12 de setembro de 2014

Portaria de Atribuição de aulas 2015: um novo golpe contra os professores

Causa Operária online


Tucanos iniciam ataques contra professores mesmo antes das eleições. Imagine o que virá depois se não houver mobilização.
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo divulgou nesta sexta-feira a Portaria CGRH 01, de 05-09-2014, que “dispõe sobre as inscrições para o Processo de Atribuição de Classes e Aulas 2014 para o ano letivo de 2015”, ou seja, que trata de como se dará o processo de fixação de jornadas dos professores efetivos (hoje cerca de 120 mil) e de contratação de professores temporários (mais de 90 mil, neste ano).

Concursados contratados como “temporários”

A Portaria foi divulgada após os planos do governo terem “vazado” e serem denunciados na internet por Educadores em Luta em matéria publicada neste site que teve mais de 80 mil acessos.
A Portaria confirma o que foi denunciado. O governo do PSDB quer que milhares de aprovados no concurso de 2013 que ainda não foram convocados sejam contratados como temporários, ao estabelecer no Art. 6º  que “docentes remanescentes do Concurso Público PEB-II/2013 participarão do processo de atribuição de classes/aulas, observada a classificação obtida no concurso, na 1ª e 2ª opção, estando desobrigados de realizar a inscrição”.
Depois da propaganda enganosa do governo tucano de que o último concurso seria “o maior da história”, a medida é mais um passo para confirmá-lo como um dos maiores golpes contra os professores de toda a história.
Depois dos golpes dos editais atrasados, dos conteúdos das provas em desacordos com os editais, das provas com dezenas de erros e sem conexão com os conteúdos anunciados, das convocações de professores para jornadas para salários miseráveis de pouco mais de R$ 700 (12 horas) e das posses em pleno decorrer do ano letivo, que aumentaram o caos nas escolas e provocaram a demissão de milhares de professores..... agora, o governo quer usar o concurso como forma de classificação dos professores concursados para trabalharem como “temporários”. Golpe, golpe e mais golpe!

Mais divisão

Fica claro que o concurso não passou de um truque para excluir profissionais com vários anos de serviço e avacalhar ainda mais a situação nas escolas. A política do PSDB não é a de efetivar, muito pelo contrário, os governos tucanos são os que mais terceirizam e precarizam as contratações de servidores.
Quer criar, assim, mais uma subdivisão entre os professores, dividindo os contratados em mais faixas, colocando os aprovados no concurso como uma “faixa” distinta entre os professores “O”.
De acordo com a Portaria os docentes seriam então divididos nas seguintes faixas:
“I – docentes efetivos;
II – docentes estáveis pela Constituição Federal de 1988;
III – docentes celetistas;
IV – docentes com vínculo assegurado em lei, a que se refere o § 2º do artigo 2º da Lei Complementar nº1. 010/2007;
V – docentes contratados, nos termos da Lei Complementar nº1. 093/2009;
VI – docentes remanescentes, aprovados no Concurso público de PEB-II/2013, na 1ª e 2ª opção.”

Duzentena e Quarentena

Mostrando que a disposição do governo do PSDB em atacar os professores não tem limites, a Portaria também estabelece que os professores cujos contratos vencem em 2014 (já reconduzidos de 2013) enfrentarão a duzentena ou a quarentena, ao manter vigentes os “termos da LC nº1093/2009”. Isso significa que milhares de professores (muitos deles com anos de serviços prestados ao Estado) serão obrigados a ficar desempregados por até 200 dias. É claro que a famigerada Lei do governo tucano não garante qualquer remuneração para os professores nesse período, ou seja, o professor demitido sem qualquer indenização (o Estado não paga sequer FGTS e não assegura salário-desemprego) ficará condenado a ficar sem a menor condição de manter a si e a sua família.




27 de agosto de 2014

"Quando vi que teria um filho, fiquei desesperada. Eu não queria gerar mais um aluno"

por Sheila Pelegri de Sá via Facebook

Começo minha manhã psicodélica estrelada com uma leitura triste. No depoimento de uma professora de inglês da rede pública que tentou o suicídio, a seguinte frase: "Quando vi que teria um filho, fiquei desesperada. Eu não queria gerar mais um aluno". Acho que nunca li nada a um tempo tão triste, tão profundo e tão preciso.

Penso que todas as pessoas merecem o respeito de seus semelhantes quando expõem suas limitações físicas e emocionais, desde que essas não comprometam o bem estar das demais. Aquilo que pode parecer (e provavelmente foi diagnosticado como) pânico e depressão em razão de anos de superexposição à violência dentro das salas de aula da periferia me soou, na verdade, como uma profunda lucidez em relação à impotência e ingerência a que todo ser humano se arrisca quando gera outros seres humanos.

A matéria é sobre o caos na educação pública. Uma entre dezenas, centenas, que expõem o que já sabemos há décadas. E que não é "privilégio" das "perifas" brasileiras. Só gente muito ingênua, muito desinformada e muito "vira-latas" acredita que não há caos semelhante ocorrendo agora em outros países, inclusive do "primeiro mundo". E sempre se pode mudar de emprego, é fato. Atentar contra a própria vida é algo que não me aventuro a comentar por hora. Minha tristeza não vai nesta direção. Li meia dúzia de comentários execrando a "esquerda festiva" responsável pela "baderna" nas instituições e nos valores, coisa que era diferente no "tempo dos militares", quando professores, hierarquias e instituições eram respeitados.

A memória ruim, as habilidades cognitivas comprometidas ou a falta de bom senso impedem muitas pessoas, hoje na casa dos 50, 60, 70 anos, de fazerem uma continha bem simples: quem foi educado no tempo dos militares É RESPONSÁVEL pela educação que receberam OS PAIS dessas crianças que hoje aterrorizam - com sua violência e valores - profissionais e cidadãos comuns, nas escolas públicas e privadas. O modelo educacional recebido e louvado com pavoroso saudosismo neste bizarro ano eleitoral era baseado (lembram?) no temor às consequências, na humilhação pública, na disciplina IMPOSTA com rigor e sem qualquer estímulo à reflexão e ao desenvolvimento do senso crítico.

Tivesse sido baseado no RESPEITO e na EMPATIA necessários para a convivência saudável e pacífica entre cidadãos, os PAIS de hoje, educados no pós-militarismo das décadas de 80 e 90 talvez tivessem aprendido dentro de casa algo parecido e sido realmente inspirados a transmitirem aos seus rebentos que arrebentam. Os "filhos" da ditadura geraram genitores permissivos, condescendentes, culpados, negligentes, superficiais, materialistas. Para além das causas sociais da violência - que sou ninguém para discutir - é necessário que RESPONSABILIDADES SEJAM ASSUMIDAS, geração após geração.

Não é uma questão de procurar culpados. De caçar bruxas (las hay, las hay...) Em muitas famílias o acesso e as oportunidades relativas à educação variam muito de geração para geração. Pais que não estudaram na maioria das vezes se esforçam para que os filhos frequentem a escola, por exemplo. Ainda que seja para rasgar o rosto da coleguinha com o lápis afiado aos seis anos, ou para desferir tapas na professora. Pais que estudaram no ensino público e ganham algum dinheiro se debulham para oferecer educação privada aos filhos. Ainda que seja para que eles tratem seus professores como seus funcionários. Pais que cursaram apenas fundamental ou médio querem ver os diplomas universitários dos filhos. Ainda que estes tenham sido conquistados em condições tacanhas, num ciclo perverso de enganadores e enganados. Muitos pais acreditam que estão realmente fazendo o melhor possível. Muitos avós acreditam que no seu tempo era muito melhor. Muitos professores na ativa já jogaram a toalha há tempos e não sou eu quem vai depositar toda a "responsa" nas costas deles. E todas essas pessoas votam.




22 de julho de 2014

Devemos investir 10% do PIB na educação?

Meu amigo Omaro, do canal Morgatório do Pássaro, discute a aprovação do PNE, que garante o aumento progressivo dos investimentos em educação para 10% do PIB (em dez dilatados anos...). Vídeo altamente recomendável, principalmente como resposta a quem pensa que o Brasil não deve aumentar o investimento na área.




25 de junho de 2014

Currículo escolar que aceita mudança climática sofre boicote nos EUA



Por Pablo Uchoa
Da BBC Brasil em Washington

O duelo entre os céticos da mudança climática e os defensores de ações para conter o aquecimento global está sendo travado também nas escolas americanas

Estados produtores de petróleo e carvão – já em pé de guerra por causa de novas regras ambientais propostas pela Casa Branca – estão boicotando diretrizes nacionais para o ensino das ciências que estabelecem uma relação de causa e consequência entre as atividades humanas e o aumento da temperatura no planeta.

É nesse contexto que o legislativo do Estado de Wyoming aprovou, na seção do orçamento estadual sobre educação, uma emenda que proíbe "qualquer gasto" com a "revisão ou adoção das diretrizes de ciência" para o currículo oficial de ensino público no Estado.

Foi a primeira unidade da federação que rejeitou oficialmente as diretrizes nacionais para o currículo, que tratam a mudança climática como um fato estabelecido cientificamente.

"Não aceito que a mudança climática seja um fato", disse o diretor do Conselho Estadual para Educação, Ron Micheli, ao jornal local Casper Star Tribune. "As diretrizes são muito tendenciosas contra o desenvolvimento dos combustíveis fósseis".

O autor da emenda, o republicano Matt Teers, criticou o currículo por "tratar o aquecimento global como ciência comprovada". "Há implicações sociais envolvidas nisso, que não são boas para Wyoming", disse.

Efeito no bolso

As diretrizes nacionais levam esse nome porque foram elaboradas por organizações científicas e especialistas de 26 Estados. Mas a decisão sobre adotar ou rejeitar, total ou parcialmente, as linhas gerais, cabe a cada unidade federativa.

O currículo foi adotado por uma dúzia de Estados, incluindo o Distrito de Columbia. Porém, encontrou resistência em locais como Kentucky, Texas e Oklahoma, além de Wyoming. Todos devem grande parte de sua riqueza à indústria de combustíveis fósseis.

Em Kentucky, o governador acabou forçando o currículo goela abaixo do Legislativo. Mas no Texas, o comitê de educação já disse que existe "chance zero" de o currículo ser adotado. O legislativo de Oklahoma aprovou uma proibição às novas diretrizes semelhante à de Wyoming.

Apesar de abrigar uma variedade de áreas ambientais protegidas, como florestas e parques nacionais, entre eles Yellowstone e Grand Teton, Wyoming deve o maior quinhão da sua receita à indústria de carvão.

O Estado, que tem 600 mil habitantes distribuídos em uma área do tamanho do Estado de São Paulo, responde por 40% de toda a produção de carvão americana, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA, em inglês), órgão oficial dos EUA.

Por isso, além de proibir a implementação das novas diretrizes científicas nacionais, o legislativo determinou a elaboração de um currículo revisado que ressalte os benefícios da indústria de combustíveis fósseis para o Estado.

'Perplexidade'

A disputa em torno do ensino de ciência nas escolas ilustra como a questão climática é "um tema politicamente sensível" no país, disse à BBC Brasil o professor da Universidade de Wyoming James Barrans, que contribuiu para a elaboração das diretrizes.

"O que me impressiona é que a questão da mudança climática é uma parte muito pequena do currículo", afirmou o professor. "A maioria das diretrizes diz respeito a princípios básicos da ciência".

Outros aspectos do currículo que têm sofrido resistência em áreas religiosas ou socialmente conservadoras são a teoria da evolução, desenvolvida por Charles Darwin no século 19, e a menção à superpopulação do planeta como uma preocupação dos demógrafos.

Porém, nenhum deles tem o "elemento econômico" ligado à ciência sobre o aquecimento global, observa Barrans.

Os Estados mais poluidores já estão em pé de guerra com a Casa Branca, principalmente depois que a agência ambiental anunciou metas de redução de carbono para as fábricas que funcionam à base de carvão - matéria prima usada na geração de 37% da eletricidade americana, segundo a EIA.

O presidente Barack Obama é acusado de empreender uma "guerra ao carvão" por governadores de Estados como Texas e West Virgínia. Republicanos no Congresso dizem que as medidas impulsionadas pelo presidente serão um "peso econômico".

"Eles só querem criar resistência a qualquer coisa que acreditem que ameace a sobrevivência das receitas do Estado com a indústria", rebate o professor da Universidade de Wyoming.

"Como cientista, às vezes ainda fico perplexo com esta batalha política em torno da ciência do clima nos Estados Unidos. Porque a verdade científica é bem simples".

Desfecho inevitável

Enquanto a polêmica continua, especialistas apontam que as fábricas americanas já estão substituindo gradualmente o carvão por combustíveis que emitem menos gases causadores do efeito estufa, em particular o gás natural, abundante no país.

Em 2007, o carvão alimentava 50% da geração de eletricidade americana. O governo estima que a extração do hidrocarboneto subirá levemente até 2030 e depois disso, dependendo da legislação ambiental e dos combustíveis disponíveis, estabilizará.

Para Joseph Romm, pesquisador do Center for American Progress, uma organização liberal baseada em Washington, os dados sugerem que o carvão "não tem muito futuro nos EUA".

Para o especialista, os Estados estão dando murro em ponta de faca ao se opor ao ensino da ciência climática nas escolas. "É uma tentativa de contestar uma tendência no mercado e no mundo que é inevitável", opina.

Por outro lado, Romm lembra que, apesar de terem reduzido seu consumo doméstico, os EUA continuam sendo um importante exportador de carvão. E que o governo Obama continua concedendo licenças para novas minas de extração de carvão em Estados como Wyoming e Montana.

"Mesmo se diminuirmos o consumo de carvão neste país, e simplesmente o exportarmos, não estaremos fazendo nada para conter o aquecimento global. O carvão será apenas queimado em outro lugar", diz o ambientalista. "Para o clima do planeta não faz a menor diferença: tudo acaba na atmosfera".

Fonte: BBC Brasil


25 de maio de 2014

Por que me exonerei de meu cargo efetivo de Professor da Educação Básica II do Estado de São Paulo depois de somente 3 semanas

Por Felipe Queiroz

Graduei-me em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cerca de 700km longe de minha casa. Não posso mentir dizendo que passei dificuldades financeiras para tal até porque, apesar de não haver luxo, nunca me faltou nada: alimento, xerox, material, livros, e até mesmo lazer. Mas não podemos negar que foi um investimento pessoal.
No sétimo semestre do curso decidi que queria ser professor. Também não posso mentir dizendo que não sabia onde estava pisando, pois sabia que é uma profissão desprestigiada financeiramente, e em alguns casos até mesmo moralmente. Mas segui e sigo com este desejo.
Após me licenciar, fiquei por anos sem exercer a docência: passei pelo administrativo de uma escola particular, pelo trabalho temporário do IBGE, por bico como instrutor do idioma esperanto, até chegar a servidor técnico-administrativo de nível médio da rede federal de ensino, na qual fiquei por 03 anos. Quando servidor federal, pude fazer duas pós-graduações em nível de especialização além de um curso de aperfeiçoamento, e hoje sou segundanista do curso de Serviço Social da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Sou um "buscante" do conhecimento, mas nada me valia não aplicá-los um pouco que fosse, pois vivia encarcerado numa burocracia administrativa que particularmente me desumanizava. Também, portanto, não venha com a máxima embolorada do "quem sabe, faz; quem não sabe, ensina". Porque, modéstia a parte, sei alguma coisa!
Esclareço dizendo que não foi o concurso do Estado de São Paulo (no qual passei em 7º lugar, enferrujadíssimo, diante de uma amplíssima concorrência) o definidor para me exonerar de meu emprego federal, mas sim um outro concurso em uma prefeitura de minha região (no qual fiquei em 1º lugar), que paga muito "menos pior". Comparem:
Prefeitura - R$1590,00 por 10 aulas de efetivo exercício em classe;
Estado - R$677,00 por 09 aulas de efetivo exercício em classe.
Sim, no estado mais rico do Brasil e o mais caro para se viver! Contudo, como fui bem sucedido nos dois concursos e o acúmulo dos dois é legal, resolvi abraçar o estado e pegar uma escola estadual para a qual pudesse me locomover a pé, me garantindo qualidade de vida. E é aí que minha desilusão começou, a partir dos exames admissionais: são tantos exames, e praticamente impossível fazê-los todos pelo SUS e/ou convênio (isso quando o pobre do professor tem um), que o gasto chega a ser exorbitante, e eu particularmente senti-me um candidato à NASA! Já depois de começar a exercer a docência, torna-se impossível estar nas duas redes e não fazer comparações de todos os tipos (e olha que a prefeitura está longe de ser perfeita), estas não só salariais mas de estrutura, de ambiente, e de condições de trabalho em geral. Pensei "tudo bem, vou fazer pelos estudantes", mas as próprias condições objetivas tornam tudo impossível para qualquer trabalho satisfatório, o que me fez ficar frustrado e sentir-me impotente diante da barbárie:
- Há uma verdadeira sopa de letrinhas que dividem e até mesmo rivalizam os professores da rede estadual paulista. A regra do Governo é "dividir para reinar". E me assustei com a falta de consciência de classe e até mesmo de união entre muitos professores. Mas também, professores eventuais, categorias O, categorias F e efetivos dividem a mesma sala dos professores, atuam na mesma situação bárbara, e recebem tratamento diferenciado. E sim, apesar de eu ter sido efetivo, toda essa precarização me atingia, e como sociedade ainda me atinge;
- Não há livros para todos os estudantes ou, quando há, a distribuição é falha. Cabe aqui a hashtag #comofaz;
- A aprovação automática (que é bem diferente do conceito de progressão continuada) é um verdadeiro crime não só por ridicularizar o trabalho do professor, mas também por boicotar o processo de ensino-aprendizagem dos próprios alunos;
- Na escola onde eu estava lotado, por exemplo, não há sequer um mapa mundi. O giz nem sempre se faz escrever sobre a lousa. A apostila é péssima, o livro um pouco melhor. Como ensinar Geografia assim, com a concorrência dos diversos eletrônicos que os estudantes consomem e tentam utilizar escondidos de nós professores? Eu finjo que ensino, eles fingem que aprendem? Não precisam responder esta! Vejam, não quero alunos com tablets e toda uma parafernalha (aliás, soy contra!), mas que exista pelo menos o mínimo;
- As perspectivas de carreira são horríveis, em todos os sentidos. Os incentivos para pós stricto sensu são, na maioria das vezes, para quem dá aula exclusivamente no estado: alguém consegue viver bem assim? Quase todos os abordados por mim diziam que estavam lá para terem "mais uma aposentadoria", mas mesmo assim questionavam-se se estava valendo a pena. Outros eram professores novos, como eu, que estavam lá por se tratar da primeira oportunidade;
- A carga horária das disciplinas não possui qualquer lógica, e no Ensino Médio as ciências humanas pagam o pato de terem bem menos aulas que o necessário. Alguém me ensina como fazer um trabalho satisfatório – nas condições acima, para piorar – dando só uma aulinha semanal para um terceiro ano do Ensino Médio, cuja maioria está ávida para entrar numa universidade?;
- Antes de assumir o cargo, passei na escola para mostrar meu horário da outra rede, para fins de acúmulo legal, para que já pudessem arrumar (já no início do ano) meu horário para segundas e sextas-feiras. Conseguiram distribuir, apesar disso, 9 aulinhas em 4 dias da semana em horários bem diferentes, chocando não só aulas das duas redes, mas também aulas na própria escola (!!!). Mais uma vez prejudicado pelo sistema;
- Ficamos reféns dos estudantes e não há qualquer suporte. Estaria mentindo se disser que cheguei a ser refém de violência, mas sim, afrontas são frequentes e não existe nem a opção de deixar quem não está a fim de assistir aula para fora e dar aulas para quem está interessado. Somos obrigados a reter todos em sala de aula como se fosse creche, e contraditoriamente não há como reprovar. O negócio é empurrar com a barriga. Mas ai se não cumprir com todas as tarefas burocráticas... Aluno fugiu correndo da sala de aula? Culpa do professor! Lá vem o inspetor capitão do mato... Não, ambiente nada saudável para se trabalhar;
- Falando em burocracia, hora de entregar as notas. "Mas eu acabei de chegar, não pude aplicar nada, e ninguém antes de mim aplicou nada também!". "Ah, faça qualquer coisa, peça um trabalhinho". "Mas houve feriado neste mês, meu horário está desorganizado, dou poucas aulas, e não sei o nome de ninguém." "Ah, mas tem que entregar as notas, professor!" "Mas que notas?! Avaliar como, que aprendizado, se comecei agora e nada do programa foi ensinado?" "Ah professor, são os prazos." "Ah, deixa pra lá..." Essa é a droga da educação estadual em uma escola considerada "filé", "modelo", etc., mesmo havendo todos os tipos de dificuldades (até mesmo para ENTRAR na escola, dada a falta de funcionários em suficiência), e... bombas;
- Dar aula no período noturno, em muitos locais, é uma aventura. Diversos perigos no trajeto casa-escola, escola-casa, ou – para muitos – uma escola para outra. Tive o desprazer de ter a única aula do período noturno (antes sendo a primeira de segunda-feira, próxima à última vespertina, a qual também ministrava) isolada para a última de quarta-feira "porque não tinha como deixar como estava" (sendo que era a única aula que não dava problemas pra mim, seria um castigo disfarçado?), quando faço outro curso superior e já havia trancado uma disciplina da universidade na segunda-feira. Imaginem que delícia ter de perder mais a disciplina da universidade de quarta (o dia inteiro) só para me deslocar à escola e dar uma única aulinha... Imaginem como estava 'feliz'. Mas não posso reclamar, né? Afinal "não é acúmulo legal, você não trabalha em outro órgão público durante o período noturno"... "Muitos professores que dão aula em Bertioga gostariam de estar aqui no seu lugar..." Ah tá, legal, mas minha própria condição de universitário me possibilita bolsas com melhor relação custo x benefício, bem menos dor de cabeça, e ainda ganho linha no tal currículo Lattes.
Assim meu ideal de promover educação para os filhos da classe trabalhadora foi para o saco no caso da rede estadual paulista. Não estou para brincar ou para fingir. Não sou professor "tia maricota" ou "leitor de apostila". Prefiro ficar na rede municipal na qual estou, quem sabe complementar a carga para ganhar mais e ter menos dor de cabeça. Ou então pensar em algum tipo de bolsa na UNIFESP, já que também sou estudante de graduação lá. Ou quem sabe algumas aulas em algum cursinho popular ou até mesmo escola particular caso fique necessitado de dinheiro... Só sei que o estado de São Paulo só vale a pena no caso de ser a última opção para quem está com a corda no pescoço, por isso o entra e sai de professores é tão grande, até por parte dos efetivos concursados como foi meu caso, várias matérias jornalísticas mostram isto. Simplesmente não vale a pena, e sei que não fui o único. Desejo sorte e dou toda a solidariedade aos camaradas que ficam lutando na trincheira, tirando leite de pedra, alguns em escolas melhores que a minha, outros em bem piores... Mas todos sofrendo com o salário achatado, os horários esdrúxulos, a desvalorização, o assédio moral como regra, os acertos desfeitos, o conflito professor x aluno que a cada dia se acirra mais, dado os estudantes que são educados exclusivamente pela TV, a parte imbecil da internet, e o Whatsapp.
Deste "maior concurso do magistério do estado de São Paulo" já foram chamados alguns professores, e está sendo chamada a segunda leva. Alguns, como eu, já se exoneraram. Outros, vão aguentar por não terem outra opção. E o exército de professores eventuais, contratados em caráter precário, e contratados estáveis, continuará existindo de maneira massiva mesmo depois de rodar toda a lista do concurso, para o mal da educação pública. E para o bem estrito do demotucanato paulista (a quem não interessa educar ninguém de fato, nem mesmo de maneira utilitária, menos ainda emancipatória), de alguns burocratas asseclas, da Veja (que fala que professor é vagabundo, doutrinador, e se a educação vai mal a culpa é dele), e de certo rol de "pedabobas" que nunca pegaram um giz na mão mas têm ataques de diarreia pedagógica por meio do mundo mágico de teóricos dos quais nunca leram um livro inteiro. Para mim, deu. Toda a solidariedade a quem me substituir, mas estou fora... Tenho outras cartas na manga, e nunca fiz qualquer concurso público só pelo "sonho da estabilidade".
Enquanto isto, quem não pode, vai aguentando as bombas, os desacatos, as imoralidades, o sindicato pelego, o esforço indo em vão, os estudantes colocando-os contra a parede e, estes docentes, sendo genis de vários tipos de gente e da cara de pau do governador e seus parceiros no horário eleitoral falando de números esdrúxulos... E aí, por fim, a equipe da direção tentando apagar vários incêndios ao mesmo tempo... GREVE? A própria APEOESP (sindicato) barra após acordo de cúpula, junto com colegas pelegos, e até mesmo a própria Polícia Militar.
Vou me embora, assim sendo, e não é para Pasárgada não. Em três semanas desenvolvi sintomas que só fui conhecer depois de mais de três anos de serviço federal! Enquanto uma revolução não acontece, sigo com meu esboço de projeto de vida. Estado de São Paulo, volto só se mudar MUITO a conjuntura. O que parece ser impossível, face o reacionarismo padrão dos paulistas (OBS.: antes de me xingar, sou paulista também!). Então sigo do meu jeito... Infelizmente para mim, infelizmente para os alunos com brilho nos olhos, infelizmente para a educação como um todo.



4 de abril de 2014

Campanha denuncia abusos sofridos em escolas públicas


Por Thiago Araújo

Higor Valente tem 25 anos e é professor de sociologia do Estado de São Paulo. Ele é gay e diz que já foi ameaçado pelo diretor de uma escola da rede pública onde trabalhou.
"Ser homossexual é uma ameaça ao meu emprego. Eu não tinha consciência disso tão forte, mas pelo alerta que eu recebi do meu último diretor... é. O fato de ser homossexual pode colocar meu emprego em risco muito mais facilmente do que se eu fosse heterossexual.", diz Higor em vídeo divulgado nesta quinta (3). Tá chocado? Não fique.
O vídeo com a denúncia é o início da campanha #TemAlgoErrado, promovida pela Apeoesp, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo.
A campanha foi desenvolvida a partir de uma pesquisa que rastreou os principais problemas que afetam a qualidade do ensino público em São Paulo. As opiniões colhidas são de toda a comunidade escolar, formada por alunos, pais e os próprios professores.
"Retratar as dificuldades dos professores gera força e urgência nas reivindicações dirigidas ao Governo do Estado, para que possam ser superadas as atuais deficiências da rede estadual de ensino", diz Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente do sindicato, sobre o principal objetivo da campanha da entidade.
A pesquisa diz que 57% dos professores e 70% dos alunos consideram sua escola violenta. E ainda completa: 37% dos professores já relataram casos de discriminação de vários tipos contra outros professores dentro das escolas. O estudo foi realizado em parceria com o instituto de pesquisa Data Popular.
O vídeo de Higor é apenas o primeiro de uma série de denúncias que serão divulgadas nos próximos dias no canal do YouTube dedicado à campanha. Se você é professor ou conhece alguém que seja, os relatos publicados usando a hashtag #temalgoerradoem qualquer rede social farão parte de um mural no site oficial.
Secretaria de Educação diz que não discrimina homossexuais
Procurada pelo Brasil Post, a Assessoria de Comunicação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo disse que desconhecia a denúncia relatada no vídeo, mas que abriria uma sindicância para investigar o caso.
A assessoria garantiu que a Secretaria não interfere na maneira como os professores se referem à sua orientação sexual na relação com os alunos e colegas.
O órgão afirmou também que o governo tem uma política de inclusão clara: no último concurso para admissão de novos professores e diretores, por exemplo,travestis puderam se inscrever com seu nome social.
Outro dado é que desde 1996 o projeto de conscientização Prevenção também se Ensina define o que é orientação sexual: "A homossexualidade não é doença física nem problema psicológico. Hoje já se sabe que ser gay ou lésbica não é uma opção, porque não implica uma escolha."


Fonte: BrasilPost


22 de fevereiro de 2014

Aos ingressantes

Então o Senhor disse: Faça-se o Concurso Público de Provas e Títulos para Provimento de Cargos de Professor de Educação Básica Nível Dois. E o Senhor viu que isso era mais ou menos. Mas a Secretaria da Educação achou que era bom demais, e resolveu complicar um pouquinho. Foi assim que passou a exigir que os candidatos aprovados no concurso apresentassem na perícia médica uma lista de exames quase do tamanho da capivara de Paulo Maluf, incluindo hemograma completo, glicemia de jejum, PSA prostático, ECG com laudo, raio-X de tórax com laudo, videolaringoscopia, audiometria vocal e tonal, TGO, TGP, Gama GT, ureia, creatinina, urina tipo 1, urocultura, além de colposcopia e colpocitologia para candidatas do sexo feminino, e mamografia caso tenha mais de 40 anos de idade.
O ingressante procura então o Sistema Único de Saúde e descobre que lá não conseguirá nem o ECG com laudo (e o “perito” do DPME não deve saber ler um ECG). A audiometria será agendada, na melhor das hipóteses, para daqui há vários meses, portanto fora do tempo hábil da perícia. A videolaringoscopia também tem de ser feita por médico particular, e só ela custará duzentos dinheiros. Tudo somado, os exames deverão custar pelo menos metade do salário de 670 dinheiros proporcionados por uma carga horária reduzida, que é o que se oferece para a maioria das vagas, que ficam todas para lá de onde Judas perdeu as proverbiais botas (lembrando que a Secretaria não reembolsa os gastos com transporte, e desconfio que tampouco restituirá o valor gasto nos exames).
Eis que o Senhor viu os frutos de sua obra e achou tudo muito, muito mau.  



19 de janeiro de 2014

Rolezinhos e rolezões

O rolezinho é o mais recente divisor entre esquerdopatas e direitopatas. De um lado, pessoas que consideram que o rolezinho é uma manifestação popular legítima e que sua proibição é uma forma de “apartheid”; de outro, aquela galera pra quem tudo é “vandalismo”, e que acha que a polícia tem mais é que descer o cacetete mesmo. Como em toda questão que já nos chega distorcida pelo excelente trabalho da mídia, a coisa é um pouco mais complicada do que esses dois times rivais querem fazer parecer.

Primeiramente, é preciso definir claramente sobre o que estamos falando: se estamos condenando atos de depredação, de violência, intimidação ou roubo, ou se apenas da reunião, em um local aberto ao público, de um grupo de pessoas que, quando juntas, promovem a maior baderna (aliás, guardadas as devidas proporções, nada diferente do que já fazem nas salas de aula). No primeiro caso, trata-se de crimes, que não estão na essência do “rolezinho”, e cuja culpabilidade é individual, não do grupo. No segundo caso, estamos falando apenas de uma contravenção, a de perturbação do sossego alheio. E sim, como qualquer outra contravenção, ela também está sujeita a pena de prisão ou multa, mas reitere-se: não é um crime. É claro que os jovens que se organizaram para o acontecimento sabiam de antemão que iriam perturbar o sossego dos lojistas e dos demais frequentadores do centro de compras, senão qual seria a “graça”? Pois é aí que a esquerda concentra sua crítica, porque parece se configurar uma manifestação concreta da luta de classes. E nisso a esquerda tem razão, afinal sabemos que esses jovens não têm muita opção de lazer, como não têm acesso a atividades educativas e culturais (a própria escola não tem sido muito mais do que uma instituição de encarceramento temporário). Mas é mais do que luta de classes: é também conflito de gerações e choque de culturas.

Depois, não é preciso apelar para termos como “happening” ou “flashmob” para entender o comportamento dessa galera. Ela não precisa de um embasamento intelectual para agir da maneira que age. Muito pelo contrário: ela absorve instintivamente a informação e se utiliza das novas tecnologias de comunicação de uma maneira cujo impacto a sociedade “tradicional” ainda não conseguiu digerir.

Agora os centros de comércio já conseguem liminares judiciais respaldando a segregação dos menores de idade (não vou nem entrar na questão do racismo ou do “apartheid social”, porque a gravidade é a mesma em todos esses casos, o que muda são apenas os critérios da segregação). Ou seja, ao invés de lhes oferecermos mais opções de lazer, tentamos tirar-lhes as poucas que ainda têm. As práticas administrativas escolares também refletem as políticas públicas: tenta-se combater a indisciplina com mais repressão, como se a repressão não fosse, ela mesma, uma das causas da indisciplina.

Então quer dizer que devemos dar aos jovens o direito de fazer toda a baderna que quiserem, onde e quando bem entenderem, impregnarem o país com seus fanques e tocarem o terror geral? Não, pessoas, não é isso que estou defendendo. Aliás, não estou propondo nenhuma solução concreta, limito-me a fazer uma constatação: embora a maioria das pessoas ainda não tenha percebido, já estamos no século 21. Preparai-vos para os rolezões.

19 de dezembro de 2013

Pelo valor do piso, CNTE convoca mobilização para início do ano letivo

MEC orienta atualização do piso em 8,32%; previsão era de 19%

Foi publicada nesta quarta-feira (18), por meio da Portaria Interministerial nº 16, a nova estimativa de custo aluno do Fundeb para 2013, a qual serve de referência para a correção do piso salarial do magistério em 2014.

O critério utilizado pelo MEC para atualizar o piso compara a previsão de custo aluno anunciada em dezembro de 2012 (R$ 1.867,15) com a de dezembro de 2013 (R$ 2.022,51), sendo que o percentual de crescimento entre os valores foi de 8,32%, passando o piso, em 2014, à quantia de R$ 1.697,37. Até então, a previsão de atualização era de 19%.

Assim como no ano passado, a CNTE questiona o percentual de correção do piso para 2014, uma vez que dados já consolidados do Fundeb, até novembro deste ano, apontam crescimento do valor mínimo de aproximadamente 15%. E isso leva a crer que o MEC agiu na ilegalidade, a fim de contemplar reivindicações de governadores e prefeitos que dizem não ter condições de honrar o reajuste definido na Lei do Piso, mas que, em momento algum, provam a propalada incapacidade financeira.

Se, em 2013, o calote no reajuste do piso foi de cerca de 8%, este ano ele ficará em torno de 7%, totalizando 15%, fora as contradições interpretativas do acórdão do STF sobre o julgamento da ADIn 4.167, que excluiu o ano de 2009 das atualizações e fixou percentual abaixo do previsto em 2010, conforme denunciado à época pela CNTE.

Diante da nova “maquiagem” que limitará o crescimento do piso, inclusive à luz do que vislumbra a meta 17 do PNE, a CNTE antecipa sua decisão de organizar grande mobilização nacional da categoria no início do próximo ano letivo.

A CNTE também continuará orientando suas entidades filiadas a ingressarem na justiça local contra os governadores e prefeitos que mantêm a aplicação dos percentuais defasados para o piso do magistério, como forma de contrapor os desmandos dos gestores públicos que têm feito caixa com os recursos destinados à valorização dos profissionais das escolas públicas.

Fonte: CUT

20 de novembro de 2013

O ensino chegou ao fundo do poço no Brasil.

Interessante a visão colocada no artigo abaixo. Parece mesmo que a decadência da educação no Brasil foi algo programado. Bem colocado quando afirma que a profissão de professor é para família pobre, é bem isso. O pior é que existem professores com a ilusão de que pertencem a classe média.
Acho que fazer o professor pensar assim também é proposital.
Título original - Acabaram com o ensino no Brasil. 
Acabaram sim com o ensino no Brasil. E não foi ao acaso ou fruto apenas de incompetência de nossos gestores públicos, foi proposital. Não há político que não saiba que um povo ignorante não reclama de receber Bolsa-Família ou qualquer outra forma de esmola político-populista, que acaba revertendo em votos. E tudo isto foi feito com o silêncio conivente da sociedade brasileira, que têm sido, ao longo de nossa história, irritantemente comodista e até corrupta, se vendendo por qualquer trocado.
Vejamos como era antigamente o ensino público. Para começar, os alunos faziam uma prova chamada "Admissão" para ingressar na escola pública. Cursavam o Primário, o Ginásio e depois teriam a opção ente o curso Científico (com ênfase em Matemática, Química, Física e Biologia) ou o Clássico (com ênfase em Latim, Francês, Espanhol, Inglês, História e Geografia). No decorrer do processo educacional, ainda aprendia-se Canto Orfeônico, Língua Portuguesa, Literatura, Filosofia, Educação Física e Artes. Os alunos, que se levantavam em respeito aos professores quando estes entravam em sala de aula trajando seus jalecos, precisavam se esforçar para tirar boas notas, já que havia repetência. Se houvesse indisciplina os pais eram chamados à escola, sem se sentirem "agredidos" por achar que iriam perder tempo com bobagens, como acontece hoje em dia. O ensino era respeitado de fato. Para quem não sabe, o ex-presidente Getúlio Vargas, por intermédio de seu ministro da Educação, Gustavo Capanema (que oi o ministro que mais tempo ficou no cargo em toda a história do Brasil, atuando por 11 anos à frente do ministério e implantou ampla reforma educacional ao país), acompanhava muito de perto o ensino, chegando a visitar escolas públicas. Dom Pedro II também costumava fazer o mesmo durante seu reinado, fundando até o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
As reformas implantadas por Gustavo Capanema em 09 de abril de 1942, conhecidas como "Reforma Capanema" (oficialmente denominada Lei Orgânica do Ensino Secundário) permaneceram em vigor até 1961 com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e visavam modernizar o ensino no país, adequando nossos jovens estudantes às realidades do mundo de então.
Após 1961, flexibilizou-se de tal forma o ensino, que todos os tipos de absurdos passaram a ser possíveis e a importância do professor, no contexto político, diminuiu dia-a-dia. Hoje, ser professor é profissão que apenas jovens de famílias pobres optam, devido a todas as limitações financeiras que a profissão acarreta.
O fato é que hoje a sociedade não vê o professor com o respeito e até idolatria dos tempos de outra. Ninguém mais sonha e ter um filho ou uma filha professores. Sonha-se em ter filhos médicos, advogados, jogadores de futebol ou até "piriguetes", mas professor não! A sociedade acostumou que o ensino seja de péssima qualidade, que o país não consiga ter profissionais de qualidade e que os professores sejam tratados como meros serviçais. Ninguém reclama que a maioria de nossos universitários recém formados seja, na prática, analfabetos funcionais! Do jeito que está, até para se formar novos professores fica difícil.
Quando afirmo que a sociedade ficou passiva enquanto a qualidade de nosso ensino era desmantelada não estou exagerando. Nunca vi a sociedade (descontando-se alunos e professores) sair às ruas em protesto pela baixa qualidade do ensino ou por não haver escolas públicas de qualidade em número suficiente para todos. Na verdade, a população não sai às ruas nem pelo ensino, nem pela saúde pública. Todos debatem sobre a escalação da seleção brasileira de futebol ou de seus times, mas ninguém conversa sobre como as escolas estão ruins. Quando por acaso estão diante de algum político, assumem uma posição submissa, chamando qualquer vereadorzinho de mer** de "sua excelência". Só quem fala sobre educação são os professores, que, indignados, lutam sozinhos por esta causa nacional.
O modelo de ensino de hoje em dia é baseado em respostas de múltipla escolha, para que a correção seja mais rápida (como uma linha de produção), perdendo-se a condição de argumentação em detrimento da rapidez. Não é assim que se ensina. Ensinar é dar condição de pensar além do já estabelecido. Quem é adestrado só repete, não cria.
Hoje, a ignorância de nossos alunos virou motivo de piada, coisa que eu lamento profundamente. Circula pela internet frases absurdas supostamente escritas por alunos ao responder o ENEM de 2013, por exemplo. Algumas dessas frases até têm "boa intenção", mas são discordantes com as mínimas normas do bem escrever. Vejam alguns exemplos:
"O sero mano tem uma missão."
"O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas."
"O problema ainda é maior se tratando da camada Diozanio."
"A situação tende a piorar: o madeireiros da Amazônia destroem a Mata Atlântica da região."
"O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes."
"É um problema de muita gravidez."
"A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO."
"Já está muito de difíciu de achar os pandas na Amazônia.""
"A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase acabando."
"O cerumano no mesmo tempo que constrói, também destroi, pois nos temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos."
"Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por exemplo, o do Aeds Egipte seria um bom beneficácio para o Brasil."
"Menos desmatamentos, mais florestas arborizadas."
"Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que recebemos todo dia."
"Tudo isso colaborou com a estinção do micro-leão dourado."
"Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu, o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira."
"São formados pelas bacias esferográficas."
"Eu concordo em gênero e número igual."
"Precisa-se começar uma reciclagem mental dos humanos, fazer uma verdadeira lavagem celebral em relação ao desmatamento, poluição e depredação de si próprio."
"O serigueiro tira borracha das árvores, mas não nunca derrubam as seringas."
Se estas frases acima foram realmente escritas pelos estudante que fizeram o ENEM de 2013 eu não tenho como confirmar, mas eu mesmo já testemunhei alguns absurdos da mesma proporção ditas até por universitários. Se estas frases tiverem sido realmente escritas pelos estudantes no ENEM devemos chorar, porque elas serão o alicerce de nossa sociedade para o futuro. Se forem apenas uma piada, devemos lamentar pela mente doentia de quem está brincando com coisa séria e não está nem aí para isto!
Nosso ensino só mudará quando todos nós exigirmos isto de fato. Não adianta reclamar e depois trocar o voto por um churrasco ou um uniforme para o time de futebol oferecidos por algum político. Entendo que o primeiro passo seja não reelegermos nenhum deputado estadual, federal, senador, governador e presidente. Porque, estes que estão aí, tiveram, no mínimo, um mandato para fazer alguma coisa e nada fizeram.
*Alessandro Lyra Braga é carioca, por engano. De formação é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. Vive vários dilemas religiosos, filosóficos e sociológicos. Ama o questionamento.

23 de outubro de 2013

Resenhas para o concurso

A Apeoesp oferece resenhas de toda a bibliografia do próximo concurso da SEE/SP. Em suas próprias palavras, "não podemos deixar de registrar nossa posição contrária às avaliações excludentes que vêm sendo promovidas pela Secretaria Estadual da Educação, que, além de tudo, desrespeita os professores ao divulgar extensa bibliografia a poucos dias da prova, inclusive contendo vários títulos esgotados."
Todos os arquivos podem ser baixados gratuitamente. Então, mãos à obra, galera!


















15 de outubro de 2013

Dia de Luta Nacional pela Educação

Nada melhor do que comemorar o seu dia com muito agito, não é mesmo? Pois aí está a dica deste blog para hoje! Parabéns, professores!

Chamada da página do evento no facebook:

AULA PÚBLICA - 15h, no Largo da Batata, com
Plínio de Arruda Sampaio
Marcia Tiburi (professora de filosofia/ Mackenzie)
Maurício Costa (Rede Emancipa)
Thiago Aguiar (Juntos)
Francisco Miraglia (USP)
Juliano Nik (professor rede pública estadual)

ATO - 17h, concentração no Largo da Batata

Outubro mostra com clareza a grande força que junho trouxe a luta da educação.
A greve dos professores do Rio de Janeiro que exige dignidade para a carreira docente, autonomia para o trabalho do professor e combate a falsa meritocracia na educação está se fortalecendo e conta com o apoio geral da população, como mostrou o Ato Um Milhão Pela Educação. Tem apoio também a ocupação da Câmara dos Vereadores pelos professores e por todo Brasil é enorme a indignação contra a repressão brutal que o prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral orquestraram contra os educadores mobilizados. Os governantes negam-se repetidamente a negociar com os professores, aprovando planos surdos às reivindicações. 
Em São Paulo a situação do professor não é menos pior: no começo do ano ocorreram greves da rede estadual e municipal e não houve nenhuma reivindicação atendida plenamente. Pelo contrário: acordos para fim de greve foram descumpridos pelo prefeito Fernando Haddad e Alckmin. Inúmeros professores “categoria Ó” passam atualmente pelo constrangimento de não receber seus salários por meses, como foi o caso do professor Juliano Nicklevicz, apoiador da Rede Emancipa, que por não receber salário por mais de 4 meses entrou em greve e foi demitido. Ora, quem não cumpriu o seu dever, o estado ou o professor? A luta dos professores contra a precarização de sua carreira, por melhores salários e condições de trabalho é uma necessidade da melhoria da educação. 
A educação faz luta também nas universidades estaduais paulistas: no dia 01 de outubro vimos começar uma forte greve estudantil e ocupação da reitoria na USP motivadas pela luta por democracia na universidade e eleições diretas para reitor. Na Unicamp os estudantes também querem democracia e não a presença da polícia militar no campus, e ocuparam da reitoria. Meses antes a UNESP entrou em greve por melhores salários para os funcionários, permanência estudantil para os estudantes e contra a falsa política de inclusão chamada PIMESP, que o Emancipa combateu com afinco desde o início do ano. 
A Rede Emancipa de Cursinhos Populares e vários movimentos sociais de educação e movimentos negros estão em luta pela aprovação da Lei de Cotas nas Universidades Estaduais Paulistas e conseguiram em junho derrotar o PIMESP, política racista de Alckmin que queria impor mais uma barreira aos estudantes da escola pública e negros para ingresso nas universidades públicas. 
A nível nacional, há anos diferentes movimentos sociais lutam por 10% do PIB para a educação pública, mas até hoje o governo Dilma não o aprovou: seu governo é contra este aumento. Com demandas não atendidas, não à toa caíram os índices de aprovação dos governos. Eles não representam os interesses da população e mentem quando dizem priorizar a educação. 
A Rede Emancipa apoia e está na luta com todos que defendem a Educação. Queremos mais investimento, prioridade, qualidade, condições boas de trabalho, autonomia para os professores, direito a voz para os estudantes e funcionários! 
Os levantes de junho deram uma lição imprescindível à nossa geração: é lutando coletivamente que conquistamos nossos direitos. Agora é a vez da educação! 

No dia 15 de Outubro, dia do professor, façamos um Grande Dia de Luta Nacional pela Educação, junto com os professores e professoras!


20 de setembro de 2013

Mal-estar generalizado

A "pane de vocação" é generalizada no continente europeu: por razões diferentes, um grande número de países vivencia dificuldades para contratar professores

Por Lúcia Müzell

O divórcio entre o professor e a sala de aula andava tão escancarado na França que acabou levando a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2008, quando o Filme Entre les murs (Entre os muros da escola), de Laurent Cantet, venceu o principal prêmio do cinema francês. A história de um professor que tentava despertar um mínimo de motivação na classe de uma escola em um bairro popular de Paris, em um contexto delicado de violências e ameaças, transportou para a telona - com uma dura verossimilhança - uma realidade que há muitos anos afasta os jovens da docência no país.

Bem retratada no filme, a chamada "crise de autoridade" é um mal que muitos recém-formados não conseguem remediar. Em início de carreira, os jovens professores são  destacados para os estabelecimentos mais difíceis dos bairros das principais cidades - Marselha, Lyon, Toulouse ou Lille, além da capital -, onde a tensão social, não raro ligada à integração deficiente da população imigrante na França, se transportou para o ambiente escolar. O resultado são histórias chocantes, e cada vez mais frequentes, nas páginas dos jornais: professor espancado na saída da sala de aula, professora que tira a própria vida por enforcamento no banheiro da instituição, ao passo que outra escolhe se imolar em pleno pátio, durante a recreação.

Sensação de despreparo

Há dois anos, o ex-inspetor-geral da Educação Nacional Georges Fotinos e o psiquiatra José Mario Horenstein decidiram estudar a fundo a questão e entrevistaram 2,1 mil funcionários de 400 unidades escolares. Eles concluíram que 17% do corpo docente no ensino fundamental e médio sofre de "esgotamento físico, mental e emocional", contra 11% em média nas outras profissões. Os pesquisadores ainda perceberam que 30% dos professores pensam, com frequência, em abandonar a carreira. "As diferenças entre os sexos e os estabelecimentos, seja em zona rural, urbana ou em bairros complicados, são menos determinantes do que a idade. Os jovens com menos de 30 anos são os mais desmotivados", explica Fotinos.

Sem uma formação específica, os professores sentem-se despreparados para enfrentar classes tão heterogêneas, e têm dificuldades em lidar com culturas às vezes incompreensíveis aos seus olhos. Eles também alegam que as próprias escolas estão despreparadas para atender aos alunos, o que aumenta a sensação de angústia. "Diante de uma situação muitas vezes caótica, dezenas preferem trocar de profissão enquanto é tempo", constata.

A Comissão Europeia percebeu que a "pane de vocação" é generalizada no continente. "Por razões diferentes, um grande número de países, seja a Bélgica, a Alemanha, a Áustria ou a Noruega, vivencia dificuldades para contratar professores", observou Bernadette Forsthuber, coordenadora de Educação na instituição. "A falta de acompanhamento e de perspectivas de evolução da carreira é desencorajadora."

França na berlinda

Os casos extremos resumem um mal-estar que tem, naturalmente, múltiplas causas - a começar pelos baixos salários. Os professores franceses hoje estão entre os mais mal pagos entre os países desenvolvidos, uma situação que começou a se degradar a partir de 1995, conforme a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em comparação com outros funcionários públicos, os professores recebem em média 35% a menos. Conforme o sindicato de professores, 1995 coincide com a posse do conservador Jacques Chirac na presidência, após dois mandatos do socialista François Mitterrand. Na época, os professores franceses estavam entre os mais bem remunerados da Europa, mas a direita no poder congelou os aumentos e, com a inflação, os salários foram se degenerando, a ponto de ficarem abaixo da média da OCDE.

O contracheque magro e, por consequência, a falta de interesse crescente pela profissão são problemas que se acentuam para os professores de toda a Europa em crise. De acordo com um relatório da rede de sistemas de informação sobre os sistemas educativos da Comissão Europeia Eurydice, "os salários dos docentes foram diretamente atingidos pela crise econômica": quase a metade dos países baixou ou congelou a remuneração dos seus professores desde 2009. As economias que mais sofrem são a Espanha, a Grécia, a Irlanda e Portugal - todos sob ajuda financeira internacional -, e também a Eslovênia e a República Tcheca.

Tentativas de mudança

Na França, para forçar o aumento dos salários e elevar a qualidade do ensino, em 2010, o governo decidiu exigir o diploma de mestrado para os professores - porém o tiro acabou saindo pela culatra. A formação teórica não foi acompanhada de um curso específico para lidar com a classe, como acontecia quando a qualificação mínima requisitada era apenas a graduação. A longo prazo, as dificuldades dos recém-formados em se relacionar com as turmas delicadas acabam provocando o abandono da profissão.

Além disso, com alto nível de estudos, muitos logo percebem que podem ganhar bem mais em outros setores. Os 2.000 euros brutos iniciais, pouco mais do que os do salário mínimo de 1.430 euros para qualquer profissão, permanecem desestimulantes. "Com um mestrado no currículo, um professor de matemática migra facilmente para o mercado financeiro ou para a indústria, onde ganha três vezes mais", comenta Sébastien Sihr, secretário-geral do SNUipp, o principal sindicato do ensino básico. "Afinal de contas, todo o clima está desfavorável para a profissão. O salário é apenas a gota d''água que faltava."

Este contexto ajuda a explicar por que, em 2012, 706 vagas das 4.818 abertas em concursos para professores não foram preenchidas. No ano anterior, o cenário tinha sido ainda pior, com 20,1% dos postos sem candidato. A disciplina mais atingida é justamente a matemática, seguida pelo inglês e outras línguas.

Bolsa-professor

O alerta obrigou o governo a tomar providências: no início do ano, lançou uma campanha nacional para valorizar o métier - na qual até o presidente, François Hollande, se engajou -, trouxe de volta o curso de preparação antes de lançar os professores às classes, e multiplicou por 10 o número de vagas nos concursos, para estimular a demanda. Também foi criada uma bolsa-professor, pela qual os estudantes de baixa renda dos últimos anos da graduação são incentivados a prestar concurso para professor e, em contrapartida, recebem uma bolsa de 900 euros, sob a condição de tentar a profissão por pelo menos dois anos depois de formados. O objetivo é atrair 180 mil jovens em cinco anos. Para completar, um bônus de 400 euros anuais será oferecido já a partir deste ano para todos os funcionários.

A própria crise econômica acabou fazendo o resto. Em um país onde o índice de desemprego bate recordes de 11% da população ativa - e 22,5% entre os jovens -, a segurança do funcionalismo público o torna automaticamente um refúgio. O resultado parcial das medidas de incentivo é que, em 2013, o número de inscritos nos concursos explodiu, com alta de 57% em relação a 2012. Foram 140 mil inscritos para 43,5 mil vagas abertas. As escolas parisienses registraram o aumento mais impressionante, de 92%.

A lista de aprovados ainda não foi anunciada, e os efeitos da elevação brusca do número de vagas sobre a qualidade do ensino ainda precisam de avaliação. Mas a virada na procura pode provar que o ministro da Educação, Vincent Peillon, talvez esteja certo quando repete, sem descanso, que "não há crise de vocação: há crise de valorização".


4 de setembro de 2013

"Pôr fogo em tudo, inclusive em mim": desistência DO trabalho e desistência NO trabalho

Mauro Sala, via Facebook

Ontem saiu no jornal Estado de São Paulo uma reportagem que dizia que “3 mil professores desistem de dar aula nas escolas estaduais de SP”. Apesar de o número ser enorme, ele ainda é subestimado, visto que ele apenas computa as exonerações do quadro de professores concursados: “A cada dia, 8 professores concursados desistem de dar aula nas escolas estaduais paulistas e se demitem”.

Essa é apenas a pontinha do iceberg, pois como a própria reportagem nos informa, o quadro de professores concursados representa pouco mais da metade dos mais de 230 mil professores que trabalham na rede estadual paulista, algo em torno de 120 mil.

Nos “3 mil professores que desistem de dar aula nas escolas estaduais de SP” da reportagem não estão presentes (ou ausentes, sei lá!) os “63 mil professores contratados com estabilidade” e/ou os “49 mil temporários”. Quantos desses também não abandonam as escolas estaduais paulista a cada dia? O número, provavelmente, é ainda maior, devido às precariedades próprias dessas condições.

A reportagem subestima quantitativamente a desistência DO trabalho! E mais, nega totalmente uma outra forma de desistência que tem afligido o quadro dos trabalhadores docentes (e tantos outros trabalhadores!): a desistência NO trabalho.

Assim, uma questão que nos surge é o dos inúmeros casos de “professores que desistem de dar aula”, mas que não se demitem.

Essa forma de desistência pode ser facilmente confundida com pura “picaretagem”, “má vontade”, “oportunismo” ou outro tipo qualquer de condenação moral contra o trabalhador. Antes que essa vontade fácil se imponha, adianto que formas de desistência NO trabalho são reconhecidas na literatura internacional sobre a saúde do trabalhador, constando inclusive da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10).

No Brasil, a publicação do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde/Brasil, Doenças Relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde, também reconhece essa forma de desistência, buscando estabelecer o seu nexo causal com as condições e formas de organização do trabalho. Trata-se da “sensação de estar acabado”, também conhecida como síndrome de burn-out ou síndrome do esgotamento profissional. Nos países de língua espanhola, chamam essa síndrome de “síndrome de quemarse en el trabajo”.

O relatório sobre as Doenças relacionadas ao trabalho assim descreve essa doença:

“A sensação de estar acabado ou síndrome do esgotamento profissional é um tipo de resposta prolongada a estressores emocionais e interpessoais crônicos no trabalho. Tem sido descrita como resultante da vivência profissional em um contexto de relações sociais complexas, envolvendo a representação que a pessoa tem de si e dos outros. O trabalhador que antes era muito envolvido afetivamente com os seus clientes, com os seus pacientes ou com o trabalho em si, desgasta-se e, em um dado momento, desiste, perde a energia ou se “queima” completamente. O trabalhador perde o sentido de sua relação com o trabalho, desinteressa-se e qualquer esforço lhe parece inútil.”

Está associada a essa síndrome, três elementos centrais: Exaustão emocional; despersonalização; e diminuição do envolvimento pessoal no trabalho.

Trata-se de um esgotamento profissional NO e COM o trabalho... “o trabalhador perde o sentido de sua relação com o trabalho, desinteressa-se e qualquer esforço lhe parece inútil...” É uma forma de desistência de corpo presente; uma desistência daqueles que por um motivo ou outro não simplesmente se demitem.

Não sou psicólogo e não concordo inteiramente com a síndrome de “quemarse en el trabajo”, embora eu ache um baita avanço o estabelecimento de um nexo causal entre as condições e formas de organização do trabalho com essa forma de sofrimento e adoecimento psíquico.

Penso que temos que pensar essa perda de sentido também com uma relação mais clara com a própria atividade desses trabalhadores, que no caso que tratamos é o próprio trabalho educativo. Não são as condições e a organização do trabalho em geral que afetam simplesmente os trabalhadores docentes, esgotando-os; são as condições e formas de organização do trabalho que impedem efetivamente o trabalho educativo. No fim, todo professor sabe (intuitivamente e as vezes mesmo contra toda a ideologia educacional verbalizada por eles próprios) que ele tem que ensinar, “dar aula”. Essa é sua atividade principal. Mesmo que ele chame a si mesmo de “organizador”, “facilitador”, “mediador” ou qualquer outra nomenclatura hoje em voga, ele sabe que a única identidade possível nesse campo é a de professor, que se cria e se reproduz pela atividade de ensino, que tem na contraparte a efetiva aprendizagem dos alunos.

Falhar aí pode ser fatal para nossa subjetividade e para o envolvimento com o trabalho. Um livro velho de um psicólogo fora de moda talvez nos ajude a pensar essa questão. “Atividade, consciência e personalidade” de Alexis Leontiev. A ordem dos conceitos não é fortuita nem casual. Pois primeiro vem a atividade: é na atividade que constituímos nossa consciência e nossa personalidade. Assim, uma atividade que “perde o sentido”, uma atividade (o próprio trabalho educativo) que se torna impossível pelas condições e organização do trabalho só pode redundar em despersonalização... assim, em sofrimento e/ou adoecimento psíquico.

Muito difícil isso tudo! A Psicologia é campo específico para aqueles que são nela iniciados. Não é o meu caso! Facilitarei para mim e para quem acompanhou as coisas até aqui. Vamos entender de vez essa forma invisível de desistência NO trabalho lendo uma velha fábula de La Fontaine, a Raposa e as uvas:

“Uma raposa faminta entrou num terreno onde havia uma parreira, cheia de uvas maduras, cujos cachos se penduravam, muito alto, em cima de sua cabeça.
A raposa não podia resistir à tentação de chupar aquelas uvas maduras mas, por mais que pulasse, não conseguia abocanhá-las.
Cansada de pular, olhou mais uma vez os apetitosos cachos e disse:
- Estão verdes...”



1 de setembro de 2013

Por ano, 3 mil professores desistem de dar aula nas escolas estaduais de SP

Paulo Saldaña

A cada dia, oito professores concursados desistem de dar aula nas escolas estaduais paulistas e se demitem. A média de pedido de exoneração foi de 3 mil por ano, entre 2008 e 2012. Salários baixos, pouca perspectiva e más condições de trabalho estão entre os motivos para o abandono de carreira.
Os dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação são inéditos. A rede tem 232 mil professores - 120,8 mil concursados, 63 mil contratados com estabilidade e 49 mil temporários.
A fuga de professores também é registrada na rede municipal de São Paulo, mas em menor escala. As escolas paulistanas têm média de 782 exonerações por ano desde 2008.
Proporcionalmente ao tamanho das redes, o índice no Estado é duas vezes maior. Além disso, a capital conseguiu ao longo dos anos ampliar em 12% o número de efetivos, enquanto a rede estadual tem 10 mil concursados a menos do que em 2008.
Os docentes que abandonaram o Estado migraram para escolas particulares, redes municipais ou dão adeus às salas de aula. O bacharel em Educação Física Marco Antonio Uzunian, de 30 anos, decidiu ser instrutor de uma academia e hoje também trabalha em uma empresa.
Apenas um ano em uma escola estadual na Vila Carrão, na zona leste da capital, foi suficiente para ele desistir. Uzunian é um dos 2.969 efetivos que pediram exoneração só no ano passado. É o maior índice desde 2008. "Na escola eu não conseguia tocar um projeto de verdade, não tem apoio nem companheirismo", diz.
O bolso pesou na decisão. Depois de concursado, só pôde pegar uma jornada de 10 horas. "Eu não tive opção de jornada maior. Essas 10 aulas me rendiam R$ 680." A Secretaria da Educação não respondeu por que há limite de jornada para novos docentes.
Crise
Nem a estabilidade do funcionalismo público tem impedido demissões. Formado em Matemática pela Federal do Paraná, Fabrício Caliani ingressou na rede estadual em 2004. Abandonou em 2009 para ficar em escola particular. "Escolhi ser professor por vocação e faço meu trabalho bem feito. O que eu ganhava até me aposentar não ia compensar enfrentar tudo isso", diz ele, que dava aula em Bastos, no interior paulista.
Mesmo sem ter emprego em vista, Eduardo Amaral, de 39 anos, pediu exoneração em abril de 2012 - depois de 8 anos na rede. "Para além da questão do salário, jornada e condições de trabalho adversas, tem o dia a dia da escola. É um ambiente hostil", diz ele, que hoje trabalha na Câmara Municipal de São Paulo.
Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Romualdo Portella considera os dados muito altos. "Temos reconhecido que a questão-chave da educação é o professor, mas precisamos ter atratividade de carreira, boa formação, retenção e avaliação", diz.
A Secretaria da Educação defendeu que o número de exonerações representa só 1,63% do total de efetivos. Em relação à diminuição do número de efetivados, a pasta argumentou que aposentadorias, mudanças e mortes devem ser levados em conta. O governo não informou quantos concursos realizou desde 2008.

Fonte: Estadão

16 de agosto de 2013

'Alckmin trata professores como escravos da educação', acusa sindicato

por Rede Brasil Atual

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo abre hoje (15) as inscrições para que os 181,5 mil professores efetivos e estáveis da rede estadual possam acumular o cargo com a contratação temporária e aumentar a carga horária em até 65 horas semanais. O projeto foi anunciado em julho pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Até então, a carga horária máxima de um professor era de 40 horas semanais.

De acordo com a secretaria, a mudança permite que um professor com jornada de 40 horas semanais, por exemplo, possa acumular até 25 horas extras, o que representa um ganho financeiro de cerca de R$ 1.400 ao mês, além do salário-base somado às gratificações que variam de acordo com cada servidor. Para o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp), a medida do governo Alckmin precariza o trabalho do profissional da educação. “O governo do estado não tem tido sensibilidade para tratar os professores, os trata como escravos da educação”, afirmou Maria Izabel Noronha, a Bebel, presidenta da Apeoesp, à Rádio Brasil Atual.

A proposta de Alckmin, segundo ela, apesar de parecer valorizar o professor, já que permite maior remuneração, não atende às reivindicações que a categoria faz há anos, como o cumprimento da jornada com o piso salarial profissional nacional. “O que está por trás é a política de desoneração do governo. E desvalorizar os professores, tipo 'quer ganhar um pouco mais, dá mais aulas'. Não é isso que queremos. Queremos ganhar mais, valorizar nossos salários, mas com a jornada que já temos e aplicação do piso salarial, isso sim é política de valorização.”

Ela ressalta que as horas extras serão contratadas na condição de professor temporário, em que os direitos trabalhistas são bastante reduzidos. “O professor será admitido em caráter temporário, da forma mais precária que existe, não tem direito a ficar doente, a nada. É algo muito contraditório. A ideia é resolver problemas de falta de professores, mas a condição central para isso é ter um plano de cargos com salários atrativos para professores que fazem opção de estar só na rede estadual.”

No dia 30 de agosto haverá uma mobilização dos professores pela valorização dos profissionais da educação. “Vamos fazer uma grande uma grande caminhada em defesa da escola pública, do piso salarial profissional nacional e pela valorização dos profissionais da educação.”


Fonte: CUT


29 de julho de 2013

Trabalhadores em Educação de Minas Gerais param novamente em 14 de agosto

Trabalhadores e trabalhadoras em educação do Estado de Minas Gerais vão realizar nova greve por tempo determinado por 24 horas no dia 14 de agosto. Na véspera, está agendada uma reunião na Secretaria de Estado da Educação. O calendário, aprovado em assembleia no dia 11 de julho, inclui os dias 7 e 10 agosto em que educadores e educadoras participarão do Dia D das escolas estaduais.
A presidenta da CUT-MG e coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Beatriz Cerqueira afirma que a paralisação e a greve são necessárias porque os retornos do governo têm sido insuficientes, além de ignorar o acordo firmado com a categoria. “Nossa pauta é extensa, mais os principais pontos são o pagamento do Piso Salarial e a carreira. Não é possível que um professor que lecione 15, 20 anos receba o mesmo salário que um profissional que acabou de ingressar na sala de aula, isso é inadmissível.”
Beatriz Cerqueira lembra ainda que tem uma promessa de reunião com o governador Antonio Anastasia para os próximos 15 dias, quando, segundo ela, os problemas da educação serão, mais uma vez, postos na mesa.
Cobrança
Durante reunião ocorrida na manhã da última quinta-feira (18), o Sind-UTE/MG cobrou, mais uma vez do governo, o cumprimento do acordo firmado em setembro de 2011, após a greve histórica da categoria com 112 dias. Pelo acordo assinado pelo Secretário de Estado de Governo, Danilo de Castro, o governo de Minas assumiu o compromisso de pagar o Piso Salarial como vencimento básico. Além disso, o sindicato cobrou o reajuste do Piso que em 2013 foi de 7,92% e o seu pagamento retroativo a abril de 2011. Também reivindicou o imediato descongelamento da carreira, que tem previsão de permanecer estagnada até dezembro de 2015.
Em respostas às reivindicações dos trabalhadores em educação, o governador Antonio Anastasia se limitou a dizer que fará um esforço para antecipar o descongelamento e também um possível reajuste salarial para os servidores públicos. As informações, da coordenadora-geral do Sind-UTE/MG e presidenta da CUT-MG, Beatriz Cerqueira, foram repassadas após a reunião com o governador, a secretária de Estado da Educação, Ana Lúcia Gazzola e representantes de outras entidades sindicais do setor, que aconteceu na Cidade Administrativa. Pelo Sind-UTE/MG participaram da reunião as diretoras Marilda de Abreu Araujo, que é secretária da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e Lecioni Pereira Pinto.
Na oportunidade, Beatriz Cerqueira informou ainda ter afirmado ao governador que as peças publicitárias veiculadas pelo Executivo Mineiro não condizem com a realidade e explicou a verdade dos trabalhadores em educação. “Os educadores estão adoecidos, desmotivados e sem valorização. Estão sem esperança na profissão. Não é possível que um professor que lecione 20 anos receba o mesmo salário que um profissional que acabou de ingressar na sala de aula. É assim que se materializa a desvalorização.”
A direção do Sindicato questionou a informação do governo de que de março de 2010 a junho de 2013 foram acrescentados 44 mil cargos na educação. “Na contramão dessa informação, foram dispensados das disciplinas de Educação Física e Ensino Religioso 15 mil professores especialistas dos anos iniciais do Ensino Fundamental.” Além disso, as resoluções de quadro de escola dos últimos anos provocaram uma diminuição de profissionais na escola.
A reunião aconteceu por cerca de duas horas a portas fechadas. O Sind-UTE/MG convocou a equipe da Pós TV para fazer a transmissão ao vivo da reunião, mas não foi permitida. Após o término, o governador Anastasia, a secretária Gazola e a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Beatriz Cerqueira, concederam coletiva. As demais entidades que participaram da reunião não quiseram falar com a imprensa.
Em sua fala, o governador comunicou que encaminhará ao Congresso Nacional sugestão para que os recursos dos Royalties da Mineração sejam destinados à educação em Minas Gerais. “Vamos elaborar um estudo de viabilidade para definir possíveis reajustes e antecipação do descongelamento da carreira antes da data-base do funcionalismo, que é outubro”.
Mas, na avaliação do Sindicato, a reunião tinha o objetivo de discutir os problemas da educação e não ser utilizada para este tipo de anúncio. Além disso, o Governo de Minas muito ajudaria se fizesse a sua parte e investisse o mínimo constitucional de 25% de impostos em educação. Na última década, ele não cumpriu este percentual em nenhum ano.

Fonte: CUT Brasil