27 de janeiro de 2016

Novo secretário de Educação de SP é o desembargador que defendeu auxílio moradia para comprar “terno em Miami”

Por Raoni de Assis Marques

presidentetribunal

Quando você acha que já viu de tudo, vem outra notícia que deixa você perplexo. Então veja essa. Você sabe quem é o novo secretário de educação do estado de São Paulo?

O escolhido de Alckmin (PSDB) é José Renato Nalini, que até recentemente era presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. O desembargador Nalini ficou nacionalmente conhecido após dar uma entrevista, no mínimo, infeliz, em que defendeu o auxílio moradia para Juízes (o valor é superior a R$ 4 mil reais e não há a necessidade de comprovação do gasto com moradia).

“Aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de imposto de renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno e não dá para ir toda hora a Miami comprar terno” disse Nalini em entrevista para a televisão.

Em outro trecho, o atual secretário de educação de São Paulo defendeu o auxílio moradia para juízes dessa forma: “O auxílio moradia foi um disfarce pra aumentar um pouquinho… e até para fazer com que o Juiz fique um pouco mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC e etc”.

Se Nalini for usar essa sua lógica para os professores do estado de São Paulo, estes podem até comemorar. Porque o desembargador vai se surpreender com a quantidade de professores que estão com depressão, síndrome de pânico e outras doenças relativas ao seu trabalho e a falta de valorização dele. Então, se é assim, que venha o auxílio moradia para professores com valor superior a R$ 4 mil reais.



14 de dezembro de 2015

A lição dada pelos nossos alunos

por José Antonio Lages*

Escola Otoniel Mota ocupada. Foto: Mastrângelo Reino

A política de reorganização das escolas estaduais empreendida pelo governador Geraldo Alckmin acaba de sofrer uma fragorosa derrota. O governador e seu partido, acostumados à política de mando, colocavam em prática mais uma vez decisões sem consulta pública prévia, principalmente aos diretamente atingidos por elas. Muito simples seria convocar pais, professores, alunos e funcionários para atender a um dos princípios básicos da Constituição: a participação democrática. Mas não. A reorganização foi apresentada com força de lei, os apelos de discussão desdenhados, os argumentos dos próprios alunos e suas famílias, dos educadores, professores e especialistas em educação foram desqualificados.

Devemos sempre fazer a leitura pedagógica das decisões públicas. Estas nos ensinam a participar, argumentar e aceitar a solução alcançada, porque nos reconhecemos no processo que a construiu. O que vemos hoje na grande maioria dos políticos é uma mentalidade de síndico profissional. O que acaba reduzindo o processo político a uma cascata de operações jurídicas, administrativas e policiais. Obviamente, a lição passada por estes senhores é a pior possível. Eles querem nos ensinar, sem mais o conseguirem, que o poder se exerce a partir da autoridade e na ausência de vergonha. Querem que aprendamos assim, como nos informa Christian Dunker, em um artigo seu recente, que “diante de qualquer problema social, basta culpar a educação, mas, na hora de pagar pelo serviço, basta chamar a polícia”.

Vale a pena aqui destrinchar a visão que predomina nesta reorganização proposta pelo governo paulista. O objetivo fundamental nunca foi mais qualidade de ensino ou elaboração de meios que facilitem o aprendizado, como foi fartamente alegado. Pelo contrário, a reorganização pretendida acarreta indagações e incertezas sobre o funcionamento da instituição escolar.

Para fornecer elementos para uma análise dessa realidade, Michel Foucault se apresenta como principal referência teórica, possibilitando a compreensão das relações presentes no cotidiano escolar. Nas relações de poder contidas nesse ambiente, sobre as quais se alicerça a política de educação do Estado, o “poder disciplinar” demonstra toda a sua eficácia. Os mecanismos componentes desse poder são os responsáveis pela afirmação de um sistema punitivo que move toda a engrenagem educacional. A mesma linha de disciplina presente nos hospitais e prisões para Foucault. Aquele sistema punitivo se manifestou com toda a crueza com as intimidações, ameaças, tentativas de criminalização do movimento, repressão policial e até prisões de manifestantes.

A reação dos alunos não poderia ter sido mais exemplar. Contra a reorganização geral das escolas levada a cabo por gestores profissionais, a chamada geral para que os alunos tomassem posse efetiva de um equipamento que pertence a eles por direito foi um gesto pleno de autoridade. Estes alunos estão nos ensinando que é preciso tornar a escola o centro do debate. Eles estão nos indicando o caminho de retorno ao espaço público e da apropriação de nossos bens simbólicos. A educação pode desenvolver a lucidez e a descentração, fazer duvidar, fazer refletir, perturbar nossa tranquilidade. A escola é o lugar privilegiado para esta confrontação, como dizia o grande pensador protestante francês Paul Ricoeur.

São de amplo conhecimento os verdadeiros objetivos da reorganização escolar do Sr. Alckmin: separação de ciclos, enxugamento das turmas superlotando as salas de aula e desempregando professores, redução de despesas, preparação de uma estrutura para dar sequência à municipalização “branca” e mesmo à privatização do ensino público, como o mesmo partido do governador já está fazendo em Goiás. Sabemos como se criam métricas para resultados “maquiados”, porém tivemos que esperar nossos alunos tomarem o lugar de professores para sairmos desse saber sem consequência.

A partir da experiência e dos problemas concretos vivenciados, com a contribuição ou não de seus professores, com o apoio de outros movimentos sociais, por tudo isso nossos alunos nos deram uma verdadeira aula de cidadania! Esperamos que daqui a pouco todas as escolas deste país, privadas e públicas, possam ser realmente ocupadas, não por “alunos-números ou carne intelectual processada, mas por gente capaz de escrever os caminhos de seu próprio saber”, como disse Christian Dunker no mesmo artigo de que já falamos.

Entenda:

Ocupação Otoniel Mota, em Ribeirão, termina nesta segunda (14/12), aos 14 dias, depois de conseguir garantias de que o governo estadual não efetivará mudanças no próximo ano letivo. Leia carta dos estudantes:

"Nós, alunos que ocupamos o Otoniel Mota em luta pelo fim da reorganização escolar e por nítidas melhorias na educação do Estado, vimos publicamente e por páginas particulares para maior visibilidade, informar que a nossa ocupação está encerrada a partir do dia 14/12/2015. Informamos também que, entretanto, não estamos distantes da luta educacional, ao contrário, nossa desocupação ocorre em virtude da preocupação com demais aspectos da vida escolar em questão. Quanto ao horário de funcionamento da unidade, caberá à gestão escolar comunicar à comunidade.
Formamos um grupo consciente e convicto. Continuaremos mobilizados em busca de objetivos para a melhoria da educação."



José Antonio Lages é graduado em Filosofia, História e Pedagogia, mestre em História e doutorando em Ciências da Religião. Professor da rede municipal e pesquisador da história de Ribeirã Preto, fez parte do Conselho Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Patrimônio. 


25 de novembro de 2015

Carta de repúdio à "reestruturação" escolar

A Unicamp, a USP e a Unifesp já divulgaram notas de repúdio à assim chamada "reestruturação escolar" do Alckmista (que transforma ouro em... chumbo, digamos). Depois de mais de cem escolas ocupadas (e com pedido de reintegração de posse negado pelo Tribunal de Justiça do Estado), é a vez de a Unesp (ou de uma parte dela) se pronunciar. Unesp cujo reitor de 2009 a 2010 foi ninguém menos que esse que atende pelo medievalesco nome de Prof. Dr. Herman Jacobus Cornelis Voorwald (isso sim é que é nome de alquimista que se preze!).


Segue-se a íntegra da CARTA DE REPÚDIO DOS DISCENTES E DOCENTES DO PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA E LÍNGUA PORTUGUESA DA UNESP/ARARAQUARA À REESTRUTURAÇÃO ESCOLAR

Nós, docentes e discentes, abaixo-assinados, do Programa de Pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, profundamente inseridos no contexto educacional e responsáveis por formar profissionais que atuarão em todos os níveis de ensino, lançamos a seguinte carta de repúdio à medida imposta pelo governo estadual de reestruturação escolar que visa a separação de cada um dos três ciclos, que são o Ensino Médio, o Fundamental I (1° ao 5° ano) e o Fundamental II (6° ao 9°ano), em escolas diferentes.

Tal reestruturação, já programada para o ano letivo de 2016, terá impacto imediato na educação escolar, uma vez que promoverá o fechamento confirmado de centenas de salas de aula e de 94 escolas, eliminando, desse modo, cerca de 2 milhões de vagas “excedentes”, sem modificar o número absurdo de cerca de 40 estudantes por sala de aula e a alta jornada de trabalho dos professores. A precarização da educação, a partir de uma reestruturação, não é novidade do governo paulista. Desde 1995, na gestão de Mário Covas, deu-se início à divisão das escolas estaduais por ciclos de Fundamental I e Fundamental II, o que efetivou o fechamento de 864 escolas e acarretou a municipalização de centenas delas.

De vinte anos para cá, o que se vê é a continuidade desse modo negligente e autoritário de governar que bloqueia o diálogo com os professores, pais e estudantes. Sem acordo, após a maior greve de professores já vista no Estado de São Paulo, de 92 dias, o secretário da educação Hermann Voorwald anunciou, sorrateiramente, pela imprensa, essas mudanças no ensino já para o próximo ano letivo, sem consultar, em nenhum momento, qualquer membro da comunidade escolar. O discurso da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo elenca uma série de aspectos que justificariam a “reorganização” escolar, tais como queda na taxa de natalidade ao longo dos anos, fechamento de escolas com supostos índices baixos no IDESP, a suposta melhoria de foco e aprendizagem pela divisão por ciclos.

No entanto, esses argumentos podem ser facilmente refutados, pois o fechamento de salas de aula e de escolas inteiras vai ao encontro, obrigatoriamente, a uma piora do ensino, já que isso acarretará em uma maior superlotação das salas de aula, reduzirá a oferta do ensino noturno e do EJA, ocasionará progressivo índice de desemprego das carreiras relacionadas à gestão escolar como professores, diretores, coordenadores, agentes escolares e, ainda, desemprego entre trabalhadores da merenda e da limpeza.
Caso a finalidade do governo estadual fosse promover melhorias no ensino, aproveitaria espaços ociosos, que o mesmo diz haver, para diminuir o número de estudantes por salas, investiria na infraestrutura dos prédios já existentes, forneceria subsídios básicos como materiais de higiene e limpeza que faltam, muitas vezes, nas unidades de ensino. Dessa forma, fica claro que a real intenção do governo paulista é, meramente, o “corte de gastos” na educação estadual.

Outra problemática envolve a reificação dos estudantes das escolas públicas que são tratados como números. O governador ignora que eles são sujeitos sócio-históricos e que pertencem, portanto, a contextos não neutros e distintos de moradia, família, condições financeiras etc. Para exemplificar, expomos o caso das escolas de Américo Brasiliense, E.E. Profa. Alzira Dias de Toledo Piza e E.E. Dinorá Marcondes Gomes, pertencentes a bairros rivais. Desse modo, os estudantes, para continuarem estudando, enfrentarão um clima de tensão e medo. Para o governador, não é indicado misturar estudantes de idades diferentes, mas colocá-los em perigo não é um problema. Isso derrota com veemência a ideia de que as crianças nas escolas de ciclo único “se sentem mais acolhidas e seguras”.

Além disso, a reestruturação não considera a rotina dos pais, o vínculo afetivo estabelecido entre o estudante e a comunidade escolar, o acesso ao transporte público, o relevo geográfico da região e a periculosidade do trajeto moradia-escola. Temos como exemplo, em Araraquara, a E.E. Augusto da Silva César e a E.E. João Pires de Camargo cujos estudantes realocados deverão atravessar vias de trânsito rápido como a Av. Domingos Zanin e a Via Expressa, que separam as escolas.

Sobre a relação entre a reestruturação escolar e o nosso programa de pós-graduação

Em um programa de pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa, presume-se a formação de mestres e doutores e, com isso, a formação de professores para atuar em diferentes instituições de ensino, abarcando do ensino básico à pós-graduação.

Assim, grande parte dos professores-pesquisadores do nosso Programa estarão aptos a formar novos professores. Essa atividade, contudo, está ameaçada pelos constantes ataques do governo do estado de São Paulo a todas as instâncias da educação pública. No ensino público superior, as ofensivas vêm ocorrendo nos últimos meses concomitantemente à reestruturação. Além da suspensão da contratação de docentes efetivos, em setembro deste ano, foi divulgada não só a reestruturação escolar, mas também a reestruturação da graduação na Unesp que redefinirá a computação dos créditos. Na prática, isso significa a redução da função mediadora do docente e incentiva, cada vez mais, a diminuição de concursos públicos para cargos efetivos . Observa-se que a gestão tucana vem tomando iniciativas para precarizar o sistema público educacional, para futuramente apresentar, como única solução, a privatização e a terceirização, como já está em processo em Goiás . Essa medida, que começa com a reestruturação do ensino básico, contra a qual estamos lutando, alcança, simultaneamente, a universidade pública. Ou seja, embora o ataque à educação pareça, nesse momento, apenas afetar a educação básica, esse é o início de um projeto muito maior: fazer com que a educação pública como um todo sirva a critérios meramente econômicos. Desse modo, nossas carreiras estarão ameaçadas pois, como é sabido, as universidades particulares, em sua maioria, não estão interessadas em contratar doutores para compor seu corpo docente, aliás, algumas dispensam, inclusive, o título de mestre. Não é interessante, para uma instituição que visa o lucro, manter, em seu quadro de gastos, doutores.

Sobre a reestruturação do ensino público, nos perguntamos: estamos formando mestres e doutores para quê? Para quem? Isso posto, nós, abaixo-assinados, docentes e discentes do PPGLLP da Unesp Araraquara, nos solidarizamos com gestores, estudantes, funcionários, pais e professores e todos aqueles que vão às ruas em defesa da escola pública. Essa luta tem o nosso total apoio.




Adriana Afonsina Silva de Oliveira Discente
Adriana Celia Alves Discente
Adriel G Silva Discente
Alessandra Del Ré Docente
Alessandra Jacqueline Vieira Discente
Ana Cristina Biondo Salomao Docente
André Luiz Machado Discente
Angelica Rodrigues Docente
Anna Carolina Saduckis Mroczinski Discente
Bárbara Melissa Santana Discente
Bruno Vituzzo Matheus Discente
Camila Cristina de Oliveira Alves Discente
Carlos Eduardo da Silva Ferreira Discente
Carolina Gonçalves da Silva Discente
Carolina Moya Fiorelli Discente
Caroline Costa Lima Discente
Cássia Regina Coutinho Sossolote Docente
Catharine Piai de Mattos Discente
Cibele Cecilio de Faria Rozenfeld Docente
Cinthia Yuri Galelli Discente
Dacyo Cavalcante Fernandes Discente
Eneida Gomes Nalini de Oliveira Discente
Flávia de Freitas Berto Discente
Gisela Sequini Favaro Discente
Gislene da Silva Discente Discente
Heloísa Bacchi Zanchetta Discente
Jessica Chagas de Almeida Discente
Jessica de Castro Gonçalves Discente
Jéssyca Camargo Da Cruz Discente
José Cezinaldo Rocha Bessa Discente
José Radamés Benevides de Melo Discente
Júlia Batista Alves Discente
Juliana Simões Fonte Discente
Juliane de Araujo Gonzaga Discente
Karolinne Finamor Couto Discente
Leonardo Arctico Santana Discente
Leticia Cordeiro de Oliveira Bueno Discente
Levi Henrique Merenciano Discente
Lígia Egídia Moscardini Discente
Lilian Maria Marques E Silva Discente
Luciane de Paula Docente
Luiza Bedê Barbosa Discente
Marcela Barchi Paglione Discente
Maria do Rosario Gregolin Docente
Maria Teresa Silva Biajoti Discente
Mariana Daré Vargas Discente
Marina Rosa Severian Discente
Michel Ferreira dos Reis Discente
Nildiceia Aparecida Rocha Docente
Patricia Bomtorin Discente
Patricia Veronica Moreira Discente
Priscila Florentino De Melo Merenciano Discente
Rafaela Giacomin Bueno Discente
Renan Mazzola Discente
Renata Grangel da Silva Discente
Sabrina Rodrigues Garcia Balsalobre Discente
Tatiele Novais Silva Discente
Thiago Ferreira da Silva Discente
Victor Hugo Cruz Caparica Discente
Yuri Araújo de Mello Discente


Fonte: UOL Educação 




10 de julho de 2015

A verdade vem à tona: Alckmin inflou dado sobre salário de professor

Por FÁBIO TAKAHASHI

Folha de São Paulo


O governador Geraldo Alckmin (PSDB) inflou dados sobre salários dos professores da rede estadual paulista em meio à maior greve da categoria, que durou 89 dias e atingiu parcialmente a rede até o mês passado.

O tucano dizia que a paralisação não fazia sentido, pois, segundo ele, os professores tinham recebido reajuste de 45% ao longo do seu mandato anterior (2011-2014).

Na realidade, professores da ativa da rede estadual tiveram 12,3% de aumento no valor que recebem mensalmente, descontada inflação.

O detalhamento do reajuste foi informado pelo governo do PSDB à Folhasomente no fim do mês passado, após o governo ser acionado via Lei de Acesso à Informação.

A reportagem cobrava a Secretaria de Educação desde abril. O prazo para resposta chegou a vencer, e as informações foram encaminhadas só após o fim da paralisação.

Até então, o governo não informava quanto dos 45% de reajuste se referia à incorporação de gratificações.



A incorporação significa que o valor que o professor recebia como um extra passou a ser pago no salário-base.

É uma medida que beneficia os aposentados, que não recebem gratificações. Por outro lado, não contempla na mesma proporção os profissionais da ativa, que já recebiam o dinheiro mensalmente. Para eles, a maior vantagem da medida vem do fato de alguns benefícios serem calculados pelo salário-base.

Segundo os dados informados agora pelo governo, o salário-base aumentou 11,2% com a incorporação das gratificações. Como a inflação no mandato anterior de Alckmin (2011 a 2014) ficou em 21,5%, (IPC-Fipe), o ganho real da remuneração mensal dos docentes ativos foi de 12,3% durante esse período da gestão.

Esse ganho real cai para 5,3% se considerada também a inflação dos cinco primeiros meses deste ano.

governo analisa uma política salarial para os professores, que saíram da greve sem proposta concreta de aumento. Durante a paralisação, o reajuste já concedido foi um dos pontos de embate entre a Apeoesp (sindicato dos docentes) e o governo.

O sindicato dizia que os 45% não eram reais, considerando inflação e gratificações já existentes. Ao longo da greve, o governador passou a ponderar que, de fato, parte do ganho real havia sido anulado pela inflação, mas não citava as incorporações.

OUTRO LADO

Procurado, o Palácio dos Bandeirantes disse que os esclarecimentos sobre adivulgação dos salários inflados dos professores estaduais deveriam ser feitos pela Secretaria de Educação. A pasta ressaltou que vantagens dadas aos professores da ativa são calculadas a partir do salário-base.

Em nota, o órgão diz ser "inacreditável que a reportagem da Folha conclua, sabe-se lá como, que a incorporação de gratificações historicamente pleiteada pela categoria não beneficie diretamente profissionais da ativa".

O salário-base, diz, "repercute no aumento de benefícios como valorização por especialização e mérito, adicional por tempo de serviço e sexta-parte". Não foi informado, porém, qual o impacto do reajuste do salário-base na remuneração mensal do docente.

"O fato", diz a secretaria, é que o salário-base teve "aumento de 45% nominal e 21% real [descontada a inflação]".


O governo diz que "foi transparente e divulgou incorporações quando ocorridas". A pasta, porém, não havia detalhado até mês passado quanto dos 45% de reajuste proviam da incorporação. E não informou por que demorou dois meses para responder a solicitação da Folha sobre o tema.

24 de setembro de 2014

Entender ciências é exceção no Brasil, mostra pesquisa

Segundo Instituto Abramundo, metade dos chefes não entende sequer gráficos um pouco mais complexos, por exemplo. Só 5% dos brasileiros conseguem aplicar a ciência no dia-a-dia


São Paulo – De cada 100 brasileiros que têm pelo menos até a quarta-série, apenas 5 são capazes de aplicar conhecimentos de ciências em atividades simples do cotidiano – como calcular a potência de um chuveiro, por exemplo, segundo levantamento do Instituto Abramundo. 

O Instituto chegou a essa conclusão após analisar o desempenho de cerca de 2 mil pessoas com idade entre 15 e 40 anos que tinham até a quarta série diante de situações cotidianas que envolviam o domínio de conceitos científicos.

O desempenho foi medido de acordo com o Índice de Letramento Científico, desenvolvido pela Abramundo em parceria com o Ibope Inteligência.

Veja qual foi o desempenho dos entrevistados na escala desenvolvida pelo instituto.

Básico
O que consegue fazer? Compreende informações apresentadas de maneira clara (e explícita) em contextos já conhecidos. No fim das contas, não usa conceitos científicos para entender o mundo.

Quantos estão neste grupo? 16% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 29% estavam neste grupo. No ensino médio, eram 14%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 4% eram deste nível.

Rudimentar
O que consegue fazer? É capaz de localizar informações em diversos formatos de textos e reconhecer termos científicos simples, mas não consegue resolver problemas ou interpretar informações científicas. 

Quantos estão neste grupo? 48% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 50% estavam neste grupo. Do ensino médio, eram 52%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 37% eram deste nível.

Intermediário
O que consegue fazer? É capaz de entender gráficos, tabelas, esquemas e textos mais complexos, além de conseguir resolver problemas que demandam a aplicação de conceitos científicos básicos. Mas não conseguem solucionar problemas mais complexos. 

Quantos estão neste grupo? 31% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 20% estavam neste grupo. Do ensino médio, eram 29%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 48% eram deste nível.

Proficiente 
O que consegue fazer? Entende, de fato, termos científicos e é capaz de aplicar conceitos da ciência para interpretar a realidade e em problemas do cotidiano. 

Quantos estão neste grupo? Apenas 5% do total de entrevistados. Entre os entrevistados que tinham apenas o ensino fundamental, 1% estava neste grupo. Do ensino médio, eram 4%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 11% eram deste nível.

Mercado de trabalho      
      
Mais do que dificultar algumas situações cotidianas simples, não dominar conceitos simples (como a habilidade de ler tabelas ou gráficos) também impacta o desempenho dos brasileiros no mercado de trabalho, segundo Ricardo Uzal, presidente do Instituto Abramundo.
A baixa produtividade da indústria nacional está aí para provar este fato. Segundo Uzal, o aumento da produtividade da economia depende de inovação e “a falta de conhecimento científico dificulta a busca por esta melhoria contínua”, afirma.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema, metade dos profissionais que ocupam um cargo de chefia no Brasil chegaram até o nível 2 do índice de letramento científico – fato que sinaliza, no máximo, um domínio rudimentar das habilidades derivadas do conhecimento básico de Ciências. Veja o quadro por profissões: 

Profissão/Cargo
Básico
Rudimentar
Intermediário
Proficiente
Profissional liberal / Micro ou Pequeno Empresário / Comerciante / Empregador / Grande Proprietário rural ou industrial / Proprietário ou Produtor rural
13%
43%
30%
15%
Funcionário de nível alto / gerencial (setor público ou privado)
0%
28%
60%
12%
Funcionário de nível técnico / estagiário / trainee (setor público ou privado)
8%
44%
40%
7%
Autônomo formal
14%
51%
30%
5%
Funcionário de nível operação / produção (setor público ou privado)
14%
50%
33%
3%
Trabalhador informal, em casa ou fora de casa
25%
48%
23%
4%
Serviço doméstico, com ou sem carteira
29%
55%
13%
3%

O setor de educação é o que mais possui profissionais proficientes em letramento científico. Mas mesmo assim, a proporção é pequena: apenas 10% dos entrevistados que declararam trabalhar na área de educação atingiram o nível máximo da análise. Veja:

Setor
Básico
Rudimentar
Intermediário
Proficiente
Educação
5%
43%
41%
10%
Saúde
5%
50%
37%
8%
Prestação de Serviços
17%
48%
30%
6%
Indústria Transformação
13%
43%
38%
6%
Administração Pública
6%
37%
50%
6%
Comércio
14%
52%
29%
5%
Transporte
8%
46%
41%
5%
Construção
24%
48%
26%
2%
Atividade Doméstica
46%
54%
0%
0%
Agricultura
40%
60%
0%
0%
Inativo
43%
29%
29%
0%

Além de colocar os entrevistados para resolver problemas, a pesquisa também os questionou sobre o grau de dificuldade que eles tinham para compreender bulas de remédios, tabelas nutricionais ou calcular quanto de combustível era necessário para percorrer um percurso.

O resultado foi desalentador: 48% dos entrevistados não conseguem sequer entender uma tabela com informações nutricionais. Confira os 10 dados simples que muita gente no Brasil não consegue entender.

Fonte: Exame