24 de setembro de 2014

Entender ciências é exceção no Brasil, mostra pesquisa

Segundo Instituto Abramundo, metade dos chefes não entende sequer gráficos um pouco mais complexos, por exemplo. Só 5% dos brasileiros conseguem aplicar a ciência no dia-a-dia


São Paulo – De cada 100 brasileiros que têm pelo menos até a quarta-série, apenas 5 são capazes de aplicar conhecimentos de ciências em atividades simples do cotidiano – como calcular a potência de um chuveiro, por exemplo, segundo levantamento do Instituto Abramundo. 

O Instituto chegou a essa conclusão após analisar o desempenho de cerca de 2 mil pessoas com idade entre 15 e 40 anos que tinham até a quarta série diante de situações cotidianas que envolviam o domínio de conceitos científicos.

O desempenho foi medido de acordo com o Índice de Letramento Científico, desenvolvido pela Abramundo em parceria com o Ibope Inteligência.

Veja qual foi o desempenho dos entrevistados na escala desenvolvida pelo instituto.

Básico
O que consegue fazer? Compreende informações apresentadas de maneira clara (e explícita) em contextos já conhecidos. No fim das contas, não usa conceitos científicos para entender o mundo.

Quantos estão neste grupo? 16% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 29% estavam neste grupo. No ensino médio, eram 14%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 4% eram deste nível.

Rudimentar
O que consegue fazer? É capaz de localizar informações em diversos formatos de textos e reconhecer termos científicos simples, mas não consegue resolver problemas ou interpretar informações científicas. 

Quantos estão neste grupo? 48% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 50% estavam neste grupo. Do ensino médio, eram 52%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 37% eram deste nível.

Intermediário
O que consegue fazer? É capaz de entender gráficos, tabelas, esquemas e textos mais complexos, além de conseguir resolver problemas que demandam a aplicação de conceitos científicos básicos. Mas não conseguem solucionar problemas mais complexos. 

Quantos estão neste grupo? 31% do total de entrevistados. Entre os que tinham apenas o ensino fundamental, 20% estavam neste grupo. Do ensino médio, eram 29%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 48% eram deste nível.

Proficiente 
O que consegue fazer? Entende, de fato, termos científicos e é capaz de aplicar conceitos da ciência para interpretar a realidade e em problemas do cotidiano. 

Quantos estão neste grupo? Apenas 5% do total de entrevistados. Entre os entrevistados que tinham apenas o ensino fundamental, 1% estava neste grupo. Do ensino médio, eram 4%. Entre os que tinham concluído (ou estavam cursando) a faculdade, 11% eram deste nível.

Mercado de trabalho      
      
Mais do que dificultar algumas situações cotidianas simples, não dominar conceitos simples (como a habilidade de ler tabelas ou gráficos) também impacta o desempenho dos brasileiros no mercado de trabalho, segundo Ricardo Uzal, presidente do Instituto Abramundo.
A baixa produtividade da indústria nacional está aí para provar este fato. Segundo Uzal, o aumento da produtividade da economia depende de inovação e “a falta de conhecimento científico dificulta a busca por esta melhoria contínua”, afirma.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema, metade dos profissionais que ocupam um cargo de chefia no Brasil chegaram até o nível 2 do índice de letramento científico – fato que sinaliza, no máximo, um domínio rudimentar das habilidades derivadas do conhecimento básico de Ciências. Veja o quadro por profissões: 

Profissão/Cargo
Básico
Rudimentar
Intermediário
Proficiente
Profissional liberal / Micro ou Pequeno Empresário / Comerciante / Empregador / Grande Proprietário rural ou industrial / Proprietário ou Produtor rural
13%
43%
30%
15%
Funcionário de nível alto / gerencial (setor público ou privado)
0%
28%
60%
12%
Funcionário de nível técnico / estagiário / trainee (setor público ou privado)
8%
44%
40%
7%
Autônomo formal
14%
51%
30%
5%
Funcionário de nível operação / produção (setor público ou privado)
14%
50%
33%
3%
Trabalhador informal, em casa ou fora de casa
25%
48%
23%
4%
Serviço doméstico, com ou sem carteira
29%
55%
13%
3%

O setor de educação é o que mais possui profissionais proficientes em letramento científico. Mas mesmo assim, a proporção é pequena: apenas 10% dos entrevistados que declararam trabalhar na área de educação atingiram o nível máximo da análise. Veja:

Setor
Básico
Rudimentar
Intermediário
Proficiente
Educação
5%
43%
41%
10%
Saúde
5%
50%
37%
8%
Prestação de Serviços
17%
48%
30%
6%
Indústria Transformação
13%
43%
38%
6%
Administração Pública
6%
37%
50%
6%
Comércio
14%
52%
29%
5%
Transporte
8%
46%
41%
5%
Construção
24%
48%
26%
2%
Atividade Doméstica
46%
54%
0%
0%
Agricultura
40%
60%
0%
0%
Inativo
43%
29%
29%
0%

Além de colocar os entrevistados para resolver problemas, a pesquisa também os questionou sobre o grau de dificuldade que eles tinham para compreender bulas de remédios, tabelas nutricionais ou calcular quanto de combustível era necessário para percorrer um percurso.

O resultado foi desalentador: 48% dos entrevistados não conseguem sequer entender uma tabela com informações nutricionais. Confira os 10 dados simples que muita gente no Brasil não consegue entender.

Fonte: Exame


12 de setembro de 2014

Portaria de Atribuição de aulas 2015: um novo golpe contra os professores

Causa Operária online


Tucanos iniciam ataques contra professores mesmo antes das eleições. Imagine o que virá depois se não houver mobilização.
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo divulgou nesta sexta-feira a Portaria CGRH 01, de 05-09-2014, que “dispõe sobre as inscrições para o Processo de Atribuição de Classes e Aulas 2014 para o ano letivo de 2015”, ou seja, que trata de como se dará o processo de fixação de jornadas dos professores efetivos (hoje cerca de 120 mil) e de contratação de professores temporários (mais de 90 mil, neste ano).

Concursados contratados como “temporários”

A Portaria foi divulgada após os planos do governo terem “vazado” e serem denunciados na internet por Educadores em Luta em matéria publicada neste site que teve mais de 80 mil acessos.
A Portaria confirma o que foi denunciado. O governo do PSDB quer que milhares de aprovados no concurso de 2013 que ainda não foram convocados sejam contratados como temporários, ao estabelecer no Art. 6º  que “docentes remanescentes do Concurso Público PEB-II/2013 participarão do processo de atribuição de classes/aulas, observada a classificação obtida no concurso, na 1ª e 2ª opção, estando desobrigados de realizar a inscrição”.
Depois da propaganda enganosa do governo tucano de que o último concurso seria “o maior da história”, a medida é mais um passo para confirmá-lo como um dos maiores golpes contra os professores de toda a história.
Depois dos golpes dos editais atrasados, dos conteúdos das provas em desacordos com os editais, das provas com dezenas de erros e sem conexão com os conteúdos anunciados, das convocações de professores para jornadas para salários miseráveis de pouco mais de R$ 700 (12 horas) e das posses em pleno decorrer do ano letivo, que aumentaram o caos nas escolas e provocaram a demissão de milhares de professores..... agora, o governo quer usar o concurso como forma de classificação dos professores concursados para trabalharem como “temporários”. Golpe, golpe e mais golpe!

Mais divisão

Fica claro que o concurso não passou de um truque para excluir profissionais com vários anos de serviço e avacalhar ainda mais a situação nas escolas. A política do PSDB não é a de efetivar, muito pelo contrário, os governos tucanos são os que mais terceirizam e precarizam as contratações de servidores.
Quer criar, assim, mais uma subdivisão entre os professores, dividindo os contratados em mais faixas, colocando os aprovados no concurso como uma “faixa” distinta entre os professores “O”.
De acordo com a Portaria os docentes seriam então divididos nas seguintes faixas:
“I – docentes efetivos;
II – docentes estáveis pela Constituição Federal de 1988;
III – docentes celetistas;
IV – docentes com vínculo assegurado em lei, a que se refere o § 2º do artigo 2º da Lei Complementar nº1. 010/2007;
V – docentes contratados, nos termos da Lei Complementar nº1. 093/2009;
VI – docentes remanescentes, aprovados no Concurso público de PEB-II/2013, na 1ª e 2ª opção.”

Duzentena e Quarentena

Mostrando que a disposição do governo do PSDB em atacar os professores não tem limites, a Portaria também estabelece que os professores cujos contratos vencem em 2014 (já reconduzidos de 2013) enfrentarão a duzentena ou a quarentena, ao manter vigentes os “termos da LC nº1093/2009”. Isso significa que milhares de professores (muitos deles com anos de serviços prestados ao Estado) serão obrigados a ficar desempregados por até 200 dias. É claro que a famigerada Lei do governo tucano não garante qualquer remuneração para os professores nesse período, ou seja, o professor demitido sem qualquer indenização (o Estado não paga sequer FGTS e não assegura salário-desemprego) ficará condenado a ficar sem a menor condição de manter a si e a sua família.




27 de agosto de 2014

"Quando vi que teria um filho, fiquei desesperada. Eu não queria gerar mais um aluno"

por Sheila Pelegri de Sá via Facebook

Começo minha manhã psicodélica estrelada com uma leitura triste. No depoimento de uma professora de inglês da rede pública que tentou o suicídio, a seguinte frase: "Quando vi que teria um filho, fiquei desesperada. Eu não queria gerar mais um aluno". Acho que nunca li nada a um tempo tão triste, tão profundo e tão preciso.

Penso que todas as pessoas merecem o respeito de seus semelhantes quando expõem suas limitações físicas e emocionais, desde que essas não comprometam o bem estar das demais. Aquilo que pode parecer (e provavelmente foi diagnosticado como) pânico e depressão em razão de anos de superexposição à violência dentro das salas de aula da periferia me soou, na verdade, como uma profunda lucidez em relação à impotência e ingerência a que todo ser humano se arrisca quando gera outros seres humanos.

A matéria é sobre o caos na educação pública. Uma entre dezenas, centenas, que expõem o que já sabemos há décadas. E que não é "privilégio" das "perifas" brasileiras. Só gente muito ingênua, muito desinformada e muito "vira-latas" acredita que não há caos semelhante ocorrendo agora em outros países, inclusive do "primeiro mundo". E sempre se pode mudar de emprego, é fato. Atentar contra a própria vida é algo que não me aventuro a comentar por hora. Minha tristeza não vai nesta direção. Li meia dúzia de comentários execrando a "esquerda festiva" responsável pela "baderna" nas instituições e nos valores, coisa que era diferente no "tempo dos militares", quando professores, hierarquias e instituições eram respeitados.

A memória ruim, as habilidades cognitivas comprometidas ou a falta de bom senso impedem muitas pessoas, hoje na casa dos 50, 60, 70 anos, de fazerem uma continha bem simples: quem foi educado no tempo dos militares É RESPONSÁVEL pela educação que receberam OS PAIS dessas crianças que hoje aterrorizam - com sua violência e valores - profissionais e cidadãos comuns, nas escolas públicas e privadas. O modelo educacional recebido e louvado com pavoroso saudosismo neste bizarro ano eleitoral era baseado (lembram?) no temor às consequências, na humilhação pública, na disciplina IMPOSTA com rigor e sem qualquer estímulo à reflexão e ao desenvolvimento do senso crítico.

Tivesse sido baseado no RESPEITO e na EMPATIA necessários para a convivência saudável e pacífica entre cidadãos, os PAIS de hoje, educados no pós-militarismo das décadas de 80 e 90 talvez tivessem aprendido dentro de casa algo parecido e sido realmente inspirados a transmitirem aos seus rebentos que arrebentam. Os "filhos" da ditadura geraram genitores permissivos, condescendentes, culpados, negligentes, superficiais, materialistas. Para além das causas sociais da violência - que sou ninguém para discutir - é necessário que RESPONSABILIDADES SEJAM ASSUMIDAS, geração após geração.

Não é uma questão de procurar culpados. De caçar bruxas (las hay, las hay...) Em muitas famílias o acesso e as oportunidades relativas à educação variam muito de geração para geração. Pais que não estudaram na maioria das vezes se esforçam para que os filhos frequentem a escola, por exemplo. Ainda que seja para rasgar o rosto da coleguinha com o lápis afiado aos seis anos, ou para desferir tapas na professora. Pais que estudaram no ensino público e ganham algum dinheiro se debulham para oferecer educação privada aos filhos. Ainda que seja para que eles tratem seus professores como seus funcionários. Pais que cursaram apenas fundamental ou médio querem ver os diplomas universitários dos filhos. Ainda que estes tenham sido conquistados em condições tacanhas, num ciclo perverso de enganadores e enganados. Muitos pais acreditam que estão realmente fazendo o melhor possível. Muitos avós acreditam que no seu tempo era muito melhor. Muitos professores na ativa já jogaram a toalha há tempos e não sou eu quem vai depositar toda a "responsa" nas costas deles. E todas essas pessoas votam.




22 de julho de 2014

Devemos investir 10% do PIB na educação?

Meu amigo Omaro, do canal Morgatório do Pássaro, discute a aprovação do PNE, que garante o aumento progressivo dos investimentos em educação para 10% do PIB (em dez dilatados anos...). Vídeo altamente recomendável, principalmente como resposta a quem pensa que o Brasil não deve aumentar o investimento na área.




25 de junho de 2014

Currículo escolar que aceita mudança climática sofre boicote nos EUA



Por Pablo Uchoa
Da BBC Brasil em Washington

O duelo entre os céticos da mudança climática e os defensores de ações para conter o aquecimento global está sendo travado também nas escolas americanas

Estados produtores de petróleo e carvão – já em pé de guerra por causa de novas regras ambientais propostas pela Casa Branca – estão boicotando diretrizes nacionais para o ensino das ciências que estabelecem uma relação de causa e consequência entre as atividades humanas e o aumento da temperatura no planeta.

É nesse contexto que o legislativo do Estado de Wyoming aprovou, na seção do orçamento estadual sobre educação, uma emenda que proíbe "qualquer gasto" com a "revisão ou adoção das diretrizes de ciência" para o currículo oficial de ensino público no Estado.

Foi a primeira unidade da federação que rejeitou oficialmente as diretrizes nacionais para o currículo, que tratam a mudança climática como um fato estabelecido cientificamente.

"Não aceito que a mudança climática seja um fato", disse o diretor do Conselho Estadual para Educação, Ron Micheli, ao jornal local Casper Star Tribune. "As diretrizes são muito tendenciosas contra o desenvolvimento dos combustíveis fósseis".

O autor da emenda, o republicano Matt Teers, criticou o currículo por "tratar o aquecimento global como ciência comprovada". "Há implicações sociais envolvidas nisso, que não são boas para Wyoming", disse.

Efeito no bolso

As diretrizes nacionais levam esse nome porque foram elaboradas por organizações científicas e especialistas de 26 Estados. Mas a decisão sobre adotar ou rejeitar, total ou parcialmente, as linhas gerais, cabe a cada unidade federativa.

O currículo foi adotado por uma dúzia de Estados, incluindo o Distrito de Columbia. Porém, encontrou resistência em locais como Kentucky, Texas e Oklahoma, além de Wyoming. Todos devem grande parte de sua riqueza à indústria de combustíveis fósseis.

Em Kentucky, o governador acabou forçando o currículo goela abaixo do Legislativo. Mas no Texas, o comitê de educação já disse que existe "chance zero" de o currículo ser adotado. O legislativo de Oklahoma aprovou uma proibição às novas diretrizes semelhante à de Wyoming.

Apesar de abrigar uma variedade de áreas ambientais protegidas, como florestas e parques nacionais, entre eles Yellowstone e Grand Teton, Wyoming deve o maior quinhão da sua receita à indústria de carvão.

O Estado, que tem 600 mil habitantes distribuídos em uma área do tamanho do Estado de São Paulo, responde por 40% de toda a produção de carvão americana, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA, em inglês), órgão oficial dos EUA.

Por isso, além de proibir a implementação das novas diretrizes científicas nacionais, o legislativo determinou a elaboração de um currículo revisado que ressalte os benefícios da indústria de combustíveis fósseis para o Estado.

'Perplexidade'

A disputa em torno do ensino de ciência nas escolas ilustra como a questão climática é "um tema politicamente sensível" no país, disse à BBC Brasil o professor da Universidade de Wyoming James Barrans, que contribuiu para a elaboração das diretrizes.

"O que me impressiona é que a questão da mudança climática é uma parte muito pequena do currículo", afirmou o professor. "A maioria das diretrizes diz respeito a princípios básicos da ciência".

Outros aspectos do currículo que têm sofrido resistência em áreas religiosas ou socialmente conservadoras são a teoria da evolução, desenvolvida por Charles Darwin no século 19, e a menção à superpopulação do planeta como uma preocupação dos demógrafos.

Porém, nenhum deles tem o "elemento econômico" ligado à ciência sobre o aquecimento global, observa Barrans.

Os Estados mais poluidores já estão em pé de guerra com a Casa Branca, principalmente depois que a agência ambiental anunciou metas de redução de carbono para as fábricas que funcionam à base de carvão - matéria prima usada na geração de 37% da eletricidade americana, segundo a EIA.

O presidente Barack Obama é acusado de empreender uma "guerra ao carvão" por governadores de Estados como Texas e West Virgínia. Republicanos no Congresso dizem que as medidas impulsionadas pelo presidente serão um "peso econômico".

"Eles só querem criar resistência a qualquer coisa que acreditem que ameace a sobrevivência das receitas do Estado com a indústria", rebate o professor da Universidade de Wyoming.

"Como cientista, às vezes ainda fico perplexo com esta batalha política em torno da ciência do clima nos Estados Unidos. Porque a verdade científica é bem simples".

Desfecho inevitável

Enquanto a polêmica continua, especialistas apontam que as fábricas americanas já estão substituindo gradualmente o carvão por combustíveis que emitem menos gases causadores do efeito estufa, em particular o gás natural, abundante no país.

Em 2007, o carvão alimentava 50% da geração de eletricidade americana. O governo estima que a extração do hidrocarboneto subirá levemente até 2030 e depois disso, dependendo da legislação ambiental e dos combustíveis disponíveis, estabilizará.

Para Joseph Romm, pesquisador do Center for American Progress, uma organização liberal baseada em Washington, os dados sugerem que o carvão "não tem muito futuro nos EUA".

Para o especialista, os Estados estão dando murro em ponta de faca ao se opor ao ensino da ciência climática nas escolas. "É uma tentativa de contestar uma tendência no mercado e no mundo que é inevitável", opina.

Por outro lado, Romm lembra que, apesar de terem reduzido seu consumo doméstico, os EUA continuam sendo um importante exportador de carvão. E que o governo Obama continua concedendo licenças para novas minas de extração de carvão em Estados como Wyoming e Montana.

"Mesmo se diminuirmos o consumo de carvão neste país, e simplesmente o exportarmos, não estaremos fazendo nada para conter o aquecimento global. O carvão será apenas queimado em outro lugar", diz o ambientalista. "Para o clima do planeta não faz a menor diferença: tudo acaba na atmosfera".

Fonte: BBC Brasil


25 de maio de 2014

Por que me exonerei de meu cargo efetivo de Professor da Educação Básica II do Estado de São Paulo depois de somente 3 semanas

Por Felipe Queiroz

Graduei-me em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cerca de 700km longe de minha casa. Não posso mentir dizendo que passei dificuldades financeiras para tal até porque, apesar de não haver luxo, nunca me faltou nada: alimento, xerox, material, livros, e até mesmo lazer. Mas não podemos negar que foi um investimento pessoal.
No sétimo semestre do curso decidi que queria ser professor. Também não posso mentir dizendo que não sabia onde estava pisando, pois sabia que é uma profissão desprestigiada financeiramente, e em alguns casos até mesmo moralmente. Mas segui e sigo com este desejo.
Após me licenciar, fiquei por anos sem exercer a docência: passei pelo administrativo de uma escola particular, pelo trabalho temporário do IBGE, por bico como instrutor do idioma esperanto, até chegar a servidor técnico-administrativo de nível médio da rede federal de ensino, na qual fiquei por 03 anos. Quando servidor federal, pude fazer duas pós-graduações em nível de especialização além de um curso de aperfeiçoamento, e hoje sou segundanista do curso de Serviço Social da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Sou um "buscante" do conhecimento, mas nada me valia não aplicá-los um pouco que fosse, pois vivia encarcerado numa burocracia administrativa que particularmente me desumanizava. Também, portanto, não venha com a máxima embolorada do "quem sabe, faz; quem não sabe, ensina". Porque, modéstia a parte, sei alguma coisa!
Esclareço dizendo que não foi o concurso do Estado de São Paulo (no qual passei em 7º lugar, enferrujadíssimo, diante de uma amplíssima concorrência) o definidor para me exonerar de meu emprego federal, mas sim um outro concurso em uma prefeitura de minha região (no qual fiquei em 1º lugar), que paga muito "menos pior". Comparem:
Prefeitura - R$1590,00 por 10 aulas de efetivo exercício em classe;
Estado - R$677,00 por 09 aulas de efetivo exercício em classe.
Sim, no estado mais rico do Brasil e o mais caro para se viver! Contudo, como fui bem sucedido nos dois concursos e o acúmulo dos dois é legal, resolvi abraçar o estado e pegar uma escola estadual para a qual pudesse me locomover a pé, me garantindo qualidade de vida. E é aí que minha desilusão começou, a partir dos exames admissionais: são tantos exames, e praticamente impossível fazê-los todos pelo SUS e/ou convênio (isso quando o pobre do professor tem um), que o gasto chega a ser exorbitante, e eu particularmente senti-me um candidato à NASA! Já depois de começar a exercer a docência, torna-se impossível estar nas duas redes e não fazer comparações de todos os tipos (e olha que a prefeitura está longe de ser perfeita), estas não só salariais mas de estrutura, de ambiente, e de condições de trabalho em geral. Pensei "tudo bem, vou fazer pelos estudantes", mas as próprias condições objetivas tornam tudo impossível para qualquer trabalho satisfatório, o que me fez ficar frustrado e sentir-me impotente diante da barbárie:
- Há uma verdadeira sopa de letrinhas que dividem e até mesmo rivalizam os professores da rede estadual paulista. A regra do Governo é "dividir para reinar". E me assustei com a falta de consciência de classe e até mesmo de união entre muitos professores. Mas também, professores eventuais, categorias O, categorias F e efetivos dividem a mesma sala dos professores, atuam na mesma situação bárbara, e recebem tratamento diferenciado. E sim, apesar de eu ter sido efetivo, toda essa precarização me atingia, e como sociedade ainda me atinge;
- Não há livros para todos os estudantes ou, quando há, a distribuição é falha. Cabe aqui a hashtag #comofaz;
- A aprovação automática (que é bem diferente do conceito de progressão continuada) é um verdadeiro crime não só por ridicularizar o trabalho do professor, mas também por boicotar o processo de ensino-aprendizagem dos próprios alunos;
- Na escola onde eu estava lotado, por exemplo, não há sequer um mapa mundi. O giz nem sempre se faz escrever sobre a lousa. A apostila é péssima, o livro um pouco melhor. Como ensinar Geografia assim, com a concorrência dos diversos eletrônicos que os estudantes consomem e tentam utilizar escondidos de nós professores? Eu finjo que ensino, eles fingem que aprendem? Não precisam responder esta! Vejam, não quero alunos com tablets e toda uma parafernalha (aliás, soy contra!), mas que exista pelo menos o mínimo;
- As perspectivas de carreira são horríveis, em todos os sentidos. Os incentivos para pós stricto sensu são, na maioria das vezes, para quem dá aula exclusivamente no estado: alguém consegue viver bem assim? Quase todos os abordados por mim diziam que estavam lá para terem "mais uma aposentadoria", mas mesmo assim questionavam-se se estava valendo a pena. Outros eram professores novos, como eu, que estavam lá por se tratar da primeira oportunidade;
- A carga horária das disciplinas não possui qualquer lógica, e no Ensino Médio as ciências humanas pagam o pato de terem bem menos aulas que o necessário. Alguém me ensina como fazer um trabalho satisfatório – nas condições acima, para piorar – dando só uma aulinha semanal para um terceiro ano do Ensino Médio, cuja maioria está ávida para entrar numa universidade?;
- Antes de assumir o cargo, passei na escola para mostrar meu horário da outra rede, para fins de acúmulo legal, para que já pudessem arrumar (já no início do ano) meu horário para segundas e sextas-feiras. Conseguiram distribuir, apesar disso, 9 aulinhas em 4 dias da semana em horários bem diferentes, chocando não só aulas das duas redes, mas também aulas na própria escola (!!!). Mais uma vez prejudicado pelo sistema;
- Ficamos reféns dos estudantes e não há qualquer suporte. Estaria mentindo se disser que cheguei a ser refém de violência, mas sim, afrontas são frequentes e não existe nem a opção de deixar quem não está a fim de assistir aula para fora e dar aulas para quem está interessado. Somos obrigados a reter todos em sala de aula como se fosse creche, e contraditoriamente não há como reprovar. O negócio é empurrar com a barriga. Mas ai se não cumprir com todas as tarefas burocráticas... Aluno fugiu correndo da sala de aula? Culpa do professor! Lá vem o inspetor capitão do mato... Não, ambiente nada saudável para se trabalhar;
- Falando em burocracia, hora de entregar as notas. "Mas eu acabei de chegar, não pude aplicar nada, e ninguém antes de mim aplicou nada também!". "Ah, faça qualquer coisa, peça um trabalhinho". "Mas houve feriado neste mês, meu horário está desorganizado, dou poucas aulas, e não sei o nome de ninguém." "Ah, mas tem que entregar as notas, professor!" "Mas que notas?! Avaliar como, que aprendizado, se comecei agora e nada do programa foi ensinado?" "Ah professor, são os prazos." "Ah, deixa pra lá..." Essa é a droga da educação estadual em uma escola considerada "filé", "modelo", etc., mesmo havendo todos os tipos de dificuldades (até mesmo para ENTRAR na escola, dada a falta de funcionários em suficiência), e... bombas;
- Dar aula no período noturno, em muitos locais, é uma aventura. Diversos perigos no trajeto casa-escola, escola-casa, ou – para muitos – uma escola para outra. Tive o desprazer de ter a única aula do período noturno (antes sendo a primeira de segunda-feira, próxima à última vespertina, a qual também ministrava) isolada para a última de quarta-feira "porque não tinha como deixar como estava" (sendo que era a única aula que não dava problemas pra mim, seria um castigo disfarçado?), quando faço outro curso superior e já havia trancado uma disciplina da universidade na segunda-feira. Imaginem que delícia ter de perder mais a disciplina da universidade de quarta (o dia inteiro) só para me deslocar à escola e dar uma única aulinha... Imaginem como estava 'feliz'. Mas não posso reclamar, né? Afinal "não é acúmulo legal, você não trabalha em outro órgão público durante o período noturno"... "Muitos professores que dão aula em Bertioga gostariam de estar aqui no seu lugar..." Ah tá, legal, mas minha própria condição de universitário me possibilita bolsas com melhor relação custo x benefício, bem menos dor de cabeça, e ainda ganho linha no tal currículo Lattes.
Assim meu ideal de promover educação para os filhos da classe trabalhadora foi para o saco no caso da rede estadual paulista. Não estou para brincar ou para fingir. Não sou professor "tia maricota" ou "leitor de apostila". Prefiro ficar na rede municipal na qual estou, quem sabe complementar a carga para ganhar mais e ter menos dor de cabeça. Ou então pensar em algum tipo de bolsa na UNIFESP, já que também sou estudante de graduação lá. Ou quem sabe algumas aulas em algum cursinho popular ou até mesmo escola particular caso fique necessitado de dinheiro... Só sei que o estado de São Paulo só vale a pena no caso de ser a última opção para quem está com a corda no pescoço, por isso o entra e sai de professores é tão grande, até por parte dos efetivos concursados como foi meu caso, várias matérias jornalísticas mostram isto. Simplesmente não vale a pena, e sei que não fui o único. Desejo sorte e dou toda a solidariedade aos camaradas que ficam lutando na trincheira, tirando leite de pedra, alguns em escolas melhores que a minha, outros em bem piores... Mas todos sofrendo com o salário achatado, os horários esdrúxulos, a desvalorização, o assédio moral como regra, os acertos desfeitos, o conflito professor x aluno que a cada dia se acirra mais, dado os estudantes que são educados exclusivamente pela TV, a parte imbecil da internet, e o Whatsapp.
Deste "maior concurso do magistério do estado de São Paulo" já foram chamados alguns professores, e está sendo chamada a segunda leva. Alguns, como eu, já se exoneraram. Outros, vão aguentar por não terem outra opção. E o exército de professores eventuais, contratados em caráter precário, e contratados estáveis, continuará existindo de maneira massiva mesmo depois de rodar toda a lista do concurso, para o mal da educação pública. E para o bem estrito do demotucanato paulista (a quem não interessa educar ninguém de fato, nem mesmo de maneira utilitária, menos ainda emancipatória), de alguns burocratas asseclas, da Veja (que fala que professor é vagabundo, doutrinador, e se a educação vai mal a culpa é dele), e de certo rol de "pedabobas" que nunca pegaram um giz na mão mas têm ataques de diarreia pedagógica por meio do mundo mágico de teóricos dos quais nunca leram um livro inteiro. Para mim, deu. Toda a solidariedade a quem me substituir, mas estou fora... Tenho outras cartas na manga, e nunca fiz qualquer concurso público só pelo "sonho da estabilidade".
Enquanto isto, quem não pode, vai aguentando as bombas, os desacatos, as imoralidades, o sindicato pelego, o esforço indo em vão, os estudantes colocando-os contra a parede e, estes docentes, sendo genis de vários tipos de gente e da cara de pau do governador e seus parceiros no horário eleitoral falando de números esdrúxulos... E aí, por fim, a equipe da direção tentando apagar vários incêndios ao mesmo tempo... GREVE? A própria APEOESP (sindicato) barra após acordo de cúpula, junto com colegas pelegos, e até mesmo a própria Polícia Militar.
Vou me embora, assim sendo, e não é para Pasárgada não. Em três semanas desenvolvi sintomas que só fui conhecer depois de mais de três anos de serviço federal! Enquanto uma revolução não acontece, sigo com meu esboço de projeto de vida. Estado de São Paulo, volto só se mudar MUITO a conjuntura. O que parece ser impossível, face o reacionarismo padrão dos paulistas (OBS.: antes de me xingar, sou paulista também!). Então sigo do meu jeito... Infelizmente para mim, infelizmente para os alunos com brilho nos olhos, infelizmente para a educação como um todo.